Como DES-construí a minha carreira

A maioria das pessoas que conheço, assim que são habilitadas a serem jovens “adultos”, começam essa grande empreitada que é “construir uma carreira”. Qualquer construção começa com uma base, nunca vi qualquer edifício que começasse a ser levantado pelo teto. Sei que já vai ter gente falando do “Querido Junior”, ou da “Amada Patrícia”, aqueles que nasceram em berço de ouro e que parecem conseguir subverter esta ordem de processos na engenharia civil: eles começam pelo topo e por lá ficam, enquanto o papai ou a mamãe tiver dinheiro pra bancar as bases do seu edifício herdado com teto de vidro blindex. Contudo, vamos pra uma outra fatia, também não muito gorda da população mundial, mas que está aí nesse lance de fazer uma carreira.

Então, a construção começa pela base. A pessoa vai pra escola. Quando chega por volta dos seus 17 anos escolhe lá uma profissão pra aprender e assim, a grosso modo, estabelece-se a fundação de uma carreira. Ela pode ir fazer um curso técnico, pode ir fazer universidade (e aí, dependendo do tamanho do edifício a ser construído, pode ser preciso incluir especializações, mestrado, doutorado, pós-doc, MBA  e congêneres), pode fazer um curso que lhe ensine um ofício que ela vai aprimorando ao longo do tempo.

Feita a base, o ou a jovem “adulto(a)”, vai passar um bom tempo estudando, fazendo estágio, correndo pra lá e pra cá, brilhando anonimamente ao entregar um trabalho que terá o nome do seu chefe e não o dele próprio, vai ganhar sorrisinhos e tapinhas nas costas do gerente quando fizer um bom trabalho, tipo as estrelinhas que a gente ganhava no caderno quando apresentava uma tarefa bem feita na escola, e vai continuar ganhando miséria. E assim o jovem “adulto” vai levantando vigas, paredes, dando prosseguimento à construção da sua carreira.

A pessoa pode escolher acabamentos diversos para sua obra e que são opcionais, dependendo do tipo de carreira/edifício escolhido e quantos andares ele vai ter: aprender umas sei lá quantas línguas, saber pintar, ter conhecimentos avançados em informática, aprender a falar em público, ser uma wikipedia ambulante e ser mestre em informações desnecessárias. Existe uma infinidade de pequenos embelezamentos que vão deixar a construção mais “bonita”no futuro. Só depende do bolso e da paciência de quem está construindo.  Daí ela, ou faz um concurso público e vai cravar a bunda em uma cadeira pelos próximos 30, 40 anos (no Brasil, agora… com essa PEC55 só mesmo acreditando em reencarnação para aposentar, pois são quase 50 anos de contribuição para o fundo de pensões brasileiro), ou vai lá travar um MMA com concorrentes no mundo corporativo até conseguir o cinturão de CEO. E que o aprenda a manter com unhas e dentes se quiser permanecer no topo. O Steve Jobs por exemplo, chegou no teto do edifício e depois virou recepcionista… deu um trabalhinho retomar a chefia de sua Apple.

Existem infinitas variáveis que aqui estou desconsiderando, pois peguei mesmo o mais clichê. E como qualquer construção, depois de uns anos há que se fazer reforma: paredes descascam, canos estouram, mais membros surgem e é preciso aumentar a casa. Então o agora “grande adulto”, vai fazer cursos de reciclagem, pode querer voltar para a universidade para fazer uma segunda graduação, ou vai lá acabar aquele mestrado que ficou trancado por uns 20 anos. São as reformas no edifício, as melhorias ou acertos que precisam ser feitos. Paredes despencam… e é preciso consertar, não?

Isto é o processo de construção da carreira. Se é sólida, depende do pedreiro, dos materiais utilizados, do arquiteto, do engenheiro, do santo para o qual você rezou, da carreira que escolheu. Umas balançam mas não caem, outras balançam e caem. Tem aquelas que são implodidas, umas se tornam edifícios inacabados e abandonados. São os projetos de vidas dos “adultos”e muitas vezes importa que sejam bem sucedidos. Mas agora que contei como eu percebo o processo de construção, vou contar o meu… o de desconstrução.

Eu comecei pensando em “construir”, então procedi da base: fui na escola, estudei, aprendi um ofício. No meu caso, eu comecei a aprender o tal trabalho com 4 anos de idade, mas isso tinha outro nome na época: D I V E R S Ã O. Eu comecei a estudar música ainda criança, depois tinha que transformar essa casinha de brinquedo em uma carreira. Então, fui fazer graduação em música, fiz mestrado em música. Estou aí com um doutorado meio emperrado, que vai e não vai… o eletricista fica me dando o bolo e a coisa ainda não desatou. 😉

Eu já fiquei sem tocar profissionalmente por 3 anos, e, desde 2011, eu quero saber cada vez menos de transformar a minha tal “carreira” em um gráfico de função exponencial com curva sempre crescente. Desde então, tenho feito cada vez menos concertos, recitais. Acabei por arrumar um trabalho de tocar em casamentos que durante muito tempo pagou as minhas contas e no qual, eu me divertia um bocado sem ter que ser a menina dos holofotes. Nos últimos concertos que fiz, em 2015, eu saí despistado porque não tinha saco pra cumprimentar as pessoas. Fiz meu trabalho, todos nos divertimos, então tudo o que eu queria era ir pra casa, deitar na minha cama e curtir a minha vida de boa, quieta. Não, não é falsa modéstia, porque os recitais foram de altíssimo nível, era só preguiça mesmo. Minha recompensa era ir pra casa tranquila, só isso.

Fui perdendo a vontade de fazer contatos, de me meter no meio das pessoas e dos projetos e das coisas. De matar um leão por dia e postar a foto no facebook do meu feito. De ir aumentando as linhas e as páginas do meu currículo. De pensar na próxima meta, no próximo desafio.

“E o doutorado?”, você deve estar se perguntando.

Eu também me pergunto isso. O doutorado foi mesmo porque: primeiro eu poderia sair do país com tudo pago (e claro que eu ia fazer tudo direitinho, pois bem ou mal seria mais um andar na minha construção, sem fazer tanto esforço), e segundo porque me custa ainda hoje admitir que essa corrida de construção de carreira simplesmente me deixa extremamente infeliz. Me custa aceitar totalmente porque trata-se de um valor,  de uma crença muito arraigados em mim, assim como no mundo que me cerca. Contudo, mesmo com essa “diretriz de construção civil”ainda marretando em minha cabeça, todo o resto de mim manda um baita “FODA-SE” para isso tudo.

Então, eu fui desconstruindo, talvez, a noção de “Carreira e Progresso”. Vou ser assim muito muito honesta, pois é meu blog, meu texto, então aqui eu me reservo o direito. A sensação de fazer uma coisa, de completar uma tarefa, de superar um desafio (esta é uma das que me dá mais preguiça atualmente, a recompensa de hormônios parece não mais ser o suficiente para me dar prazer) tem ido embora cada vez mais rápido. Se antes eu conseguia ficar uma semana em estado de graça por atingir um feito, com aquela sensação de fogos de artifício e euforia … olha, hoje dura 5 minutos e sem show pirotécnico emocional. Eu sinto sei lá, uma tranquilidade, uma coisa assim meio normal até, não muda muito quem eu sou, ou o meu dia. É até meio estranho. E se as recompensas emocionais, bio-químicas ou sei lá quais não tem sido assim estrondosas, sinceramente, eu que não vou fazer feito um drogadito e tentar doses maiores ou drogas mais pesadas, tipo: fazer umas duas graduações ao mesmo tempo, aprender japonês e grego, praticar esgrima, virar a madrugada estudando para concertos e escrevendo projetos … não sei, acho que daqui uns 6 meses, não vai ser o suficiente pra sentir a “onda”.

Sem contar que eu gosto mais quando sou ridícula e consigo rir absurdamente disso, quando as pessoas acham que sou tola. É aí que eu entro nessa mesmo, pois “ser inteligente”, para mim, é feito carregar um saco de cimento de 20 quilos no lombo até o quinquagésimo andar de um prédio sem elevador. Ser tola, é largar o saco de cimento na porta do prédio, dar meia volta, atravessar a rua e sentar no banco da praça, acender um cigarro e ver o movimento das pessoas. Nesse meio tempo, chega uma grua do nada (milagre!) e você vê o saco de cimento chegar sozinho como que por mágica até o destino nas alturas. E ninguém aplaudiu. Teve gente que tropeçou no saco de cimento e xingou o saco, você, sua mãe e o mundo. Mas eu estou do outro lado da rua, anônima, fumando meu cigarro, mal escuto as imprecações. Então o que me importa? Que me importa se quem vai ganhar o aperto de mão do chefe é o cara que pilota a grua e não eu? Foda-se! Eu é que não vou voltar pra casa com dor nas costas só pra superar o recorde do Guiness Book de “pessoas determinadamente burras” que vencem seus limites para carregar um saco de cimento (serem inteligentes) arranha-céu acima.

Então, com isso eu posso dizer também, com muita calma e certeza que para mim, a palavra “trabalho” é a palavra mais obscena que existe e eu lá quero escalar degraus e construir coisas galgando essa imunda? Não! E claro que… eu serei considerada um ser absolutamente inútil, sem valor comercial, uma unidade monetária que perdeu a validade (e que por isso não serve para negócios), tipo o rublo, o escudo, a lira, o cruzeiro real. Porque aqui nesse mundão é assim: rale o cú na ostra, se esfole, vença seus limites, sofra, se mate, faça uma novela mexicana de suas dores e feitos, se você quiser ter valor. Esforço e valor são sinônimos!!!! Isto sim é coisa do capeta pra mim!

E o esforço pode ser medido pelo tamanho do seu edifício/carreira, dos seu inúmeros feitos, e empregos/trabalhos/projetos, prêmios, concursos, artigos, publicações, lucro … olha é uma lista grande, você já entendeu a lógica aqui. Quanto maior o seu currículo, maior é sua construção. Tem gente que morre e não consegue acabar a danada.

Eu termino dizendo que assumo o meu profundo gosto e prazer por “fazer nada”, por não “ter que” nada, por me lixar para “superar limites”. Talvez, para descobrir como faço para viver como quero, eu precise superar um último limite… o medo de me abrir para a possibilidade (completamente desconhecida para mim no presente momento) de viver exatamente como eu quero: tranquila, com um maço de cigarro na bolsa, um dinheiro … bem tola, sentada no banco da praça.

 

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A escalada do “insucesso”

Nesses últimos tempos eu ando pensando sobre a minha vida e o que fiz dela nestes últimos 34 anos. E cheguei à conclusão de que sou um sucesso em não ter sucesso algum. É meio paradoxal e anti mercadológico pensar em mim nestes termos, mas venhamos e convenhamos: eu sou daquelas pessoas que têm mestria em acelerar muito o carro com o freio de mão puxado e, quando é a hora de arrancar, ou o carro morre, ou queimei todo o combustível, ou qualquer outro motivo… o carro não vai.

Claro que se eu olhar para o meu “glorioso passado” de insucessos bem sucedidos poderia dizer, que como qualquer outro humano, tive as minhas conquistas: eu fiz graduação, fiz mestrado, falo duas línguas (ok! tem gente que fala umas 4, mas enfim … estou falando das minhas coisas), consegui tirar minha cidadania italiana, com a qual sonhei um bocado de tempo (foram oito anos matutando e sonhando com o passaporte vermelho), morei na Europa (pra ter uma vidinha de cão lavando prato, claro!), sou artista, dizem que por isso, inclusive, “trabalho com o que amo”, mas eu descobri que há controvérsias…

Enfim, eu fiz umas coisas, eu tenho um curriculum vitae LATTES com sei lá quantos concertos e projetos artísticos (já que vivo em Portugal, e gostaria que os portugueses lessem meus textos, pensem na versão disto na plataforma do FCT). Eu posso contar proezas como: fui aprovada para o mestrado da Royal College of Music, Royal Academy of Music e Guildhall School of Music and Drama sei lá… umas 4 vezes? Mas claro… eu fiz tudo sem pensar direito e daí … não tinha cash pra pagar. Acelerei o carro… mas ele não andou. Quando o assunto é sucesso… cara,  me sinto uma completa farsa!

Vou explicar o porquê: tenho muita facilidade para aprender, sou extremamente intuitiva, tenho boa memória (para o que me interessa, óbvio!), tenho muito carisma com as pessoas, sou obrigada a admitir que sou uma excelente artista (há vídeos no Youtube para quem quiser averiguar e julgar por si… apesar que o julgamento alheio não me importa, sinceramente). Para completar, tenho uma mente que parece um “metamorfo sacana”: mesmo que eu não conheça o assunto, ou a pessoa… eu consigo entrar no universo alheio com uma facilidade absurda. Eu pareço uma máquina de tomografia computadorizada ambulante: ou eu vejo ou as pessoas simplesmente se revelam pra mim. É simples assim. Ou seja: eu ouço as vidas das pessoas no ponto de ônibus, na fila do supermercado. Elas começam a contar suas histórias, seus segredos. Eu converso com físicos, químicos, matemáticos, advogados sobre suas pesquisas e trabalhos… sendo que meu assunto mesmo é música… vai entender?

Mas voltando ao assunto, eu sou inteligente e a minha “esperteza” é tola. E é tola pois eu não faço muito esforço para ser inteligente, ou “saber” as coisas. Se eu disser que fiz como meus colegas músicos que estudavam horas e horas a fio, eu estarei mentindo, e nem sei  como é que conseguia tocar no exame final na faculdade e tirar nota máxima. Não posso dizer também que passei tempo debruçada sobre livros para aprender o que aprendi, seja na escrita acadêmica (que já me rendeu alguns pequenos troféus), seja na escrita informal, não, não…  ou que estudei psicologia, ou qualquer coisa do gênero. A coisa simplesmente vem no momento exato (sempre no AGORA) e eu não sei explicar como ou “porquê”.

“GÊNIO!!!!”,  alguns devem pensar. Gênio porra nenhuma! Pois eu tenho essa facilidade e poderia elencar tantas outras aqui, mas quando o assunto é medir grana na conta bancária, imóveis… ou qualquer outro “achievement”, amiga(o), o insucesso chega nem é batendo na porta, mas é arrombando-a mesmo!!!! Não tenho onde cair morta (quer dizer, tenho, pois pra cair morto basta ter um chão e desfalecer ali mesmo… não precisa ter casa própria pra isso), não tenho dinheiro guardado. Dinheiro na minha mão, sofre calefação instantânea. Não tenho visão de business para a minha vida, um plano B, C, D. Mas se bem que já conversei com muita gente nessa vida, dando ideias para as suas ideias e incentivando planos, e que para minha surpresa o negócio delas vai “muito bem, obrigado!”.

Dizem que nasci com Quiron em Touro na casa II. Isso é astrologia, outra coisa que também sei fazer: ler mapa astral. O mito de Quiron fala do “curador ferido”que, pra resumir aqui, diz que o cara era um puta médico curandeiro, que curava deus e o mundo, mas que tinha uma ferida no tornozelo (ou na perna, não me lembro) que não sarava nunca. Todo mundo, de acordo com a astrologia, tem esse Quiron de um jeito, em algum aspecto da vida. No meu caso, tem a ver com valor. Eu sei bem o valor do outro, sei ver a riqueza alheia e me maravilhar com ela (lembra da “máquina de tomografia computadorizada”?), porém, quando o assunto é multiplicar meus tesouros, sou que nem o cara da parábola dos talentos: eu enterro os meus, não sei fazer eles virarem dinheiro, sucesso, fama. Vivo eles no momento e pronto, basta. Não sei capitalizar a coisa, confesso que tenho uma certa preguiça nesse sentido.

Acho que no fim, meu sucesso maior é existir e viver a vida de um jeito bem fora da caixa em muitos sentidos. Tenho tempo para dedicar a mim, a estar comigo, às minhas descobertas e maluquices, já que não sendo um “sucesso”, não tenho uma agenda cheia de compromissos, projetos, metas, etc.

Digo isso tudo porque recentemente, descobri uma riqueza: eu tenho uma reserva infinita de tempo livre, de histórias de vida muito doidas, de descobertas meio surreais e vendo como o mundo anda, meio hipnótico e convulsivo com tanta “normose”(a doença da normalidade), “felicidade de selfie”, “realizações de facebook”, pensei que uma vida de insucessos sentida na carne, com muito sucesso poderia valer algo ou pelo menos divertir as outras pessoas. Meu tempo e a minha personalidade pouco usual poderiam valer dinheiro e as pessoas poderiam querer pagar para estar comigo. Por dois motivos: para serem por alguns minutos o que elas realmente são, e para dar umas boas risadas ou até chorar de emoção ao descobrir o quão ridícula pode ser a nossa vida. Essa é, basicamente a minha visão de coaching para o “sucesso”.

Uma conhecida me aconselhou que, para me fazer conhecida eu poderia escrever em um blog. Eu já tinha este blog, no qual eu contava peripécias da minha vida, mas naquela época eu ainda achava que poderia ser um grande “sucesso”… então não serve muito para o que quero agora. Então resolvi  retomar o meu blog, que andava em estado de hibernação e começar minha escalada … e começo por este texto.

Esta é a minha primeira tentativa de tornar meus aparentes “insucessos” em um possível sucesso. E, de agora pra frente, vou postando coisas aleatórias por aqui. Até conseguir meu intento, ou, pelo menos, umas boas risadas com o que surgir de mais essa empreitada.

 

 

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A verdadeira história do Fim do Mundo – Parte XVI

Com os convites enfumaçadamente “despachados”, voltei minha atenção para o próximo passo: organizar o jantar.

Abro uma janela, para explicar o que me passa pela cabeça com relação à esta categoria de evento social-familiar, deixando aqui registradas minhas experiências e sensações neste campo antropológico da existência.

*Primeira e única impressão: quanto mais etiqueta tem a coisa, mais eu fico entediada, achando tudo um baita SACO, e … vou embora!

Na casa dos Monteiro (pé genealógico da parte de minha mãe), não rolava esse negócio de etiqueta, de modos, de regras para o jantar, almoço ou lanche. Minha avó, aparelhava a mesa com um prato de cada cor. As xícaras jamais estavam expostas com seus respectivos pires, e, se faltasse garfo, não havia nenhum problema em comer de colher. Ela não tinha nenhum pudor em sapecar uma colherada de lasanha no seu prato, e nem de servir essa iguaria com farofa, banana assada e arroz com pequi. Vovó também não tinha nenhuma reserva para exigir de seus netos que moderassem na comilança de modo que, os bolinhos de carne de soja fossem igualmente distribuídos entre a tropa familiar. Ela era um ser econômico, e não ia esbanjar ingredientes só porque você estava faminto e tinha vontade de comer dois exemplares ao invés daquele filho único que ela estava disponibilizando.

Ah, só mais uma coisa! Com ela, aprendi uma sabedoria zen budista importante, que só os grandes iniciados conhecem e praticam: quando você tem fome, você come. Ou seja, com uma família com 8 filhos, 23 netos e 6 bisnetos, ela não se dava ao trabalho de ter que esperar todos chegarem e sentarem-se à mesa ao mesmo tempo, para começar os trabalhos gastronômicos. Se o almoço estava pronto e eu tinha fome, nunca precisei esperar aqueles tios que sempre demoravam umas 20 horas para chegar. Era só me servir e comer, até porque a mesa não comportava aquele mundaréu de gente, e Vovó não tinha problemas em servir o almoço em turnos.

Já na casa dos Radicchi (outro pé genealógico, recebido do meu pai), a coisa era um pouco diferente. O modelo lá era meio … digamos … militar. O Coronel UltraReformado Vesúvio (nome vulcânico que foi carinhosamente dado por meus tios ao meu avô Clóvis), tinha regras muito precisas sobre como deveria ser o almoço dominical em seu quartel general. Listo aqui, aquelas que ainda estão frescas em minha memória:

  • Todos tinham que ir. (E para quem não fosse, meu avô tinha sua Tenente Coronel – a minha avó – para fazer aquela técnica de tortura pior que a da CIA ou da KGB: a super chantagem emocional. Ela ficava lamentando sobre o quanto era importante a sua presença, e que por causa disso ela tinha preparado o seu pudim de leite condensado favorito, blá blá blá. Porque, meu avô, claro, ele, não estava nem aí para sua presença. Mas ai de você, se faltasse, ou se passasse por ele na cozinha e não batesse continência para o seu superior.)
  • O almoço era servido por volta das 12:30 horas. (E se você tinha amor ao seu belo pescocinho, era melhor tratar de ser pontual. Vovô ficava puto com quem chegava durante os trabalhos gastronômicos, ou depois, quando a mesa do almoço já tinha sido desfeita e estávamos todos a degustar a sobremesa. Você pagaria com sua vida tamanho desacato.)
  • Quando o cafezinho era servido, por volta das 14:30 hs, aquele era o “código secreto” para que todos se mancassem e compreendessem que era hora de… VAZAR! Vovô tomava o café e daí alguns minutos já estava indo para o quarto para tirar sua costumeira soneca da tarde. Esse era o toque de recolher para todos os soldados. E que os retardatários, aqueles que não apareceram antes  das 12:30 hs não ousassem tocar a campainha naquele horário, ou eles seriam fulminados pelo Coronel Vesuvio. Isto significava que a missão dominical no quartel general Radicchi tinha sido cumprida com sucesso pela infantaria.

Tinham outras tantas, que agora não me vêm à mente. Claro que, para eu gostar de ir lá, quando era criança, haviam regras que eram alegres. Por exemplo: meu avô era um ser que gostava de fartura, de abundância, que sabia apreciar os prazeres da mesa. Então, posso dizer que esses eventos eram verdadeiros banquetes, com pratos especiais dedicados a vários dos convidados (doce de marmelada para minha prima Carla, língua de boi para minha madrinha e eu, caixa de bombom para meu avô fazer as festa com os netos, e por aí vai). Minha avó sempre caprichava no momento “pré-almoço”. Tinha pastel, empadinha, pizza, empadão, bolinho de bacalhau … coisinhas lindas para a gente beliscar e se divertir enquanto ela providenciava o rango mesmo.

Além disso, a casa dela tinha um jardim imenso no qual seus netos poderiam se perder em inúmeras brincadeiras, além do INSS – um dos quartos, que ganhou esse apelido dos meus tios que gostavam de “encostar” lá para uma soneca pós almoço -, lugar predileto para brincar de “quarto do terror”.

Então, este foi o panorama de etiquetas que aprendi – além das regras em minha casa, com meus pais – sobre eventos familiares. Se por um lado aprendi a ser largada com aparelhamento da mesa, ou com a pontualidade dos envolvidos, deixando de ter controle da coisa e deixar o pau quebrar – como fazia minha avó Maria -, por outro, aprendi com meu avô Clóvis e minha avó Nicra a gostar de fartura, de servir coisas gostosas (não que minha vó materna não fizesse isso, mas minha outra vó era campeã mundial das gordices para netos), e de que… eu queria que o evento tivesse hora para acabar. Claro, uai! Receber visitas – que escolho a dedo, pois como meu avô paterno, sou meio bicho do mato e não “gosto” tanto assim de todo mundo – é jóia, mas eu valorizo muitíssimo meu tempo sozinha. Portanto, adoro quando a festa termina e todos vão embora. Ou seja: nada de ficar na minha casa até a próxima reencarnação … venha, mas traga junto o seu “SE MANCOL”.

Então percebi que esse era meu ponto de partida para o jantar: não me preocupar com quem viria, nem com etiquetas à mesa ou fora dela. Ocupar-me com a escolha de um menu que eu achasse gostoso de cozinhar e de comer e, definitivamente,  estabelecer uma hora para todos irem embora. Ou ficaríamos discutindo as pendências familiares pela eternidade a fora.

Resolvi dar uma explorada na cozinha, para fazer um inventário dos utensílios que estavam disponíveis para meu intento. Já sabia da existência do caldeirão e da colher de pau gigante, mas precisava ver se encontraria copos, pratos e talheres suficientes e se havia uma toalha de mesa descente para o jantar. Quando pensei nesse último item, me lembrei de que não havia reparado se a Casa possuía um móvel adequado para refeições em larga escala. Após me certificar de estar provida das miudezas que havia enumerado, fui vasculhar se havia algum cômodo que comportasse uma mesa de jantar para minha tropa de convidados ancestrais.

Fui caminhando pelo corredor, aquele com várias portas, no qual eu já tinha passeado um pouco – quando encontrei  o quarto dos Incertos ou quando fui tentar cochilar nas camas em forma de armadilhas. Pela primeira vez, me dei conta de que, aquela Casa tinha umas proporções um tanto quanto surreais. Se você a observasse de fora, parecia um imóvel padrão, com uns 3 ou 4 quartos, sala de visitas, copa, cozinha, banheiros, terreiro, nada de mais. Mas quando você entrava, ela era muito, mais muito maior. Parecia que a cada vez que eu resolvia procurar por algo, brotava “milagrosamente” um cômodo novo. Ou então, eu me surpreendia com o fato de que, objetos, móveis surgiam e desapareciam como que por encanto. Uma coisa deveras esquisita.

Naquele lugar, ser cego era um problema muito sério.  Parecia a que eu morava na casa do do Raul Seixas, mais conhecida como a morada “A METAMORFOSE AMBULANTE”: tudo mudava toda hora, e eu frequentemente acordava com aquela sensação de que “Nada Será Como Antes”- como diria o Milton Nascimento – um dos meus cantores prediletos. Sendo assim, eu estaria muito, mas muito perdida, caso não enxergasse bem. O melhor era que eu procurasse estar atenta sempre que possível, com os olhos bem abertos. Do contrário, acabaria dormindo em cima da privada, ou tomando banho no guarda-roupas, por achar que tudo SEMPRE estaria no mesmo lugar.

Em minha busca por um cômodo que pudesse comportar o meu evento ancestral, abri muitas portas. Tinha lugar vazio, lugar empilhado de coisas até o teto. Portas abertas, e portas que não abriam nem se o Rambo viesse com sua bazuca pra tentar arrombar. O projeto arquitetônico e decorativo daquela Casa, parecia vir de uma mente tão, mas tão criativa e com tanta ânsia de materializar suas ideias que resolveu construir uma Torre de Babel, com pedaços dos Jardins do Éden, contornos de Sodoma e Gomorra, fluidez da Avenida 25 de Março, com toques franceses do Palácio de Versalles, mais aquela ideia de construir tudo com técnicas do “Puxadinho”, escola arquitetônica oriunda dos artistas da Rocinha. Eu tinha herdado a 9a. maravilha do mundo e não fui avisada.

Não entrarei em detalhes sobre tudo o que vi, mas confiem em mim: foi coisa pra chuchu! Só sei, que lá pelas tantas, achei uma sala de reunião toda moderna, com uma mesona, cheia de poltronas de rodinha super confortáveis, um telão e um retroprojetor. Tipo aquelas salas de grandes CEOs de empresas, que a gente vê em filme. Não era assim, aconchegante que nem a casa das minhas avós, mas nada que uma toalha xadrez, uns pratos coloridos e uma comida honesta não amenizasse.

Dei uma limpada no local, pois ele estava empoeirado, e fui direto pra cozinha, atrás do livro mágico das minhas ancestrais pra resolver a questão do rango. Se lá eu achei a tal sopa que me fez virar esqueleto, com certeza, ia ter algo que servisse para o meu evento familiar. Encontrei uma receita com o nome de Reviravolta de Legumes – tipo um mexidão muito louco, pelo que pude entender – que, com esse nome sugestivo, achei que tinha tudo a ver com a ocasião. O que eu estava me propondo a fazer era realmente uma reviravolta: eu ia remexer no passado, ver gente que eu nunca tinha visto na vida, desenterrar velhas histórias, saLdar e saUdar antigas dívidas, quebrar velhas promessas, deletar antigas crenças… mais um tanto de outras coisas que eu tinha visto no “Manual de Instruções”, que vinha junto com o kit BB que ganhei do Banco Karma Beth.

Botei um avental, liguei o som no talo, pra dar aquela inspirada, e parti pro ataque. Descasquei, piquei, ralei, espremi, misturei, fritei, fervi, martelei, furei, assei, lavei, deixei de molho, tirei do molho, fiz molho … e, PIMBA! Ficou pronto! Uma belezura! O cheiro da minha Reviravolta de Legumes revirou a Casa inteira. Arrumei a sala na qual receberia meus convidados para o jantar e fui tomar um banho, pois estava quase na hora deles chegarem.

Pontualmente às 00:00 hs, eles começaram à chegar. E eu achando que meia-noite a gente vira abóbora… hahahaha, que nada, é quando a mágica começa. Ia parando na porta da minha casa, carroça, carruagem, carro conversível, bote salva vidas, navio, calhambeque, cavalo, mula, carro-de-boi, avião, foguete, jipe, nave espacial e até portal dimensional. Vi parente fardado, vestido de padre, feira, mendigo, pessoas com aquelas roupas frufruzadas de corte européia, gente pelada, com cocar na cabeça, pinturas corporais, peles de bicho, gente vestido com roupa de marca, roupa sem marca, com umas roupas espaciais estranhas, gente sem roupa nenhuma, gente branca, preta, amarela, verde, azul  (não estou exagerando). Tinha homem, mulher, homemmulher, mulherhomem, criança, velho, bicho, coisa, e mais uns outros tipos que eu não sei explicar. Tudo família.

Eles me cumprimentavam, cada um de um jeito e me chamando por um nome. Surreal!

Não parava de chegar parente, achei até que devia ter alugado um estádio de futebol, mas resolvi confiar que a Casa era um Grande Mistério que, como um coração cósmico, ia acomodar à todos, nem que eu tivesse que dependurar meus tataraprimos, em um lustre, meus tios no cabideiro, minhas tataraavós ETs sentadinhas na mesinha de centro da sala de estar. Pra tudo tem jeito nessa vida.

Aos poucos a movimentação na rua foi diminuindo e todos foram entrando, me entregando seus convites de fumaça, o que garantia sua entrada em meu evento VIP. Fiquei meio preocupada com a barulhada que estava rolando em minha Casa, e qualquer chilique da vizinhança, mas era engraçado: do lado de fora, estava tudo silencioso, dava pra ouvir até os grilos. O Axé Ancestral era só la dentro mesmo. Puta acústica doida, a desse imóvel.

Uma vez que botei pra dentro da Casa toda aquela ancestralidade, vinda de todas as linhas temporais, dimensões e de onde quer mais nesse Universo de Meu pai Oxalá, fechei as portas.

O jantar ia começar… e eu juro, que eu ia resolver aquele trololó de dívidas cármicas de um jeito ou de outro, ou meu nome não era Joana. E … será que era mesmo?

CONTINUA…

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A verdadeira história do Fim do Mundo – Parte XV

O Sr. S. Germain suspirou profundo e sorriu. Acredito que era a milésima vez que ele iria responder àquela pergunta capciosa.

“Srta. Joana, o Simples é uma coisa, o Fácil é outra diametralmente oposta. E muito da infelicidade e da dor de cabeça de nossos clientes está em sua mania arraigada de querer sempre transformar as duas ideias em sinônimos. A vida possui suas próprias regras semânticas e poucos estão dispostos a se alfabetizarem nesta cartilha. Existem muitas variáveis que farão com que o uso da Borracha em todas as contas seja praticamente impossível, ainda que se apresente como uma possibilidade. Há clientes aventureiros, que, encontram no pagamento de suas dívidas, experiências mais extremas do que o mais extremo dos esportes radicais e eles amam adrenalina. Outros, são acometidos de forte sentimentos de culpa… o que lhes veta qualquer outra possibilidade que não a de carregar sua cruz, custe o que custar! – e eles amam novelas mexicanas e filmes sobre messias e profetas. Além disso, vários deles alegam que carregar os seus pesos é um bálsamo fisioterápico para sua coluna. Outros ainda, são guiados pelo piloto automático… Um dia, ouviram dizer que, se chega um boleto pelo correio, é imprescindível ir ao banco pagá-lo – o que é verdade. Porém, sem se questionar como, ou para que devem fazer isso, apenas procedem com o que “deve ser feito” e ponto. Não cabe a nós, do banco Karma julgá-los ou interferir em seu processo anestésico.

Eu poderia passar o resto da tarde, citando-lhe exemplos dos mais variados, porém acredito que a Srta. tem mais o que fazer, não é mesmo?”, finalizou o gerente com uma piscadela de olho.

“Sim, sim, Sr. S. Germain, tenho uma lista de coisas pendentes para resolver. Vir ao banco é só uma delas.”, disse eu retomando o foco em minha missão poeirenta.

O homem levantou-se da mesa e foi até uma porta minúscula. Ele adentrou o pequeno umbral. Após uma barulhada de coisas sendo remexidas e desalojadas de seus lugares, ele voltou com uma pequena caixa na mão.

“Aqui estão seus dispositivos de soluções kármicas. Sua Borracha, dependendo do uso precisará ser substituída em alguns anos. Mas fique tranquila, a Srta. saberá exatamente quando isso deverá ser feito.”

O gerente me entregou os dispositivos esboçando um sorrisinho malandro, como quem já se esquivara daquela pergunta maliciosa um cem número de vezes. Percebi com isso, que meu questionamento podia até ser bom, mas não tinha a menor utilidade naquele momento. Que se dane se o Banco Karma falisse!!! Eu tinha uma pilha de contas para liquidar, além de uma Poeira Fugitiva pra pulverizar … o resto era o resto.

Agradeci ao Sr. Saint. Germain pelo seu tempo e tomei nas mãos o meu kit BB. Saí do banco decidida a por um fim naquele trololó financeiro ancestral. E eu que jurava de pé junto que era só enterrar o parente que os “Casos de Família” cairiam no esquecimento … Sabe de nada Inocente! Nem todas as missas do sétimo,  do oitavo ou do vigésimo quinto dia resolviam o assunto.

Ajeitei os documentos assim como os dispositivos bancários na cestinha da Gostosinha, montei na bike e voltei pedalando pra Casa. No caminho, tive uma ideia. Pareceu meio doida no início, mas também, naqueles dias de Fim do Mundo, loucura era a metodologia de ação mais indicada para lidar com as situações que surgiam. Sendo assim, dei corda pra coisa.

Pois bem, imaginei em despachar uns convites astrais, de modo a convocar a parentada do além para uma reunião familiar. Assim, poderíamos discutir, com uns “bons drinks” e petiscos, os rumos do nosso clã, dando um jeito naquele punhado de abacaxis e pepinos que herdei deles para descascar. Pensei em pedir a ajuda de Dona Gracinha para arranjar um jeito maluco de convidar os mortos para um jantar na Casa. Afinal, ela era a PhD em sandices e coisas sem cabimento. Entretanto, me lembrei que a velha deveria estar muito ocupada com suas próprias tretas, tentando dar cabo da lista de Pede Pra Sair, a Poeira. Eu teria então, que me virar com a minha própria malemolência – nome científico para a capacidade de romper com rótulos e crenças no que é ou não possível criar – e armar o esquema com a parentada do além.

Passei no Mercadinho D’Alma e devolvi Gostosinha para o Sr. Beleza Pura. Feito isto, tomei o rumo de Casa sem delongas… Eu tinha pressa!

Enquanto caminhava, pensava em um jeito de me comunicar com a rapaziada do outro lado para oficializar o convite.

“E se eu fizesse uma reunião de mesa branca lá em casa, para evocar os espíritos dos antepassados? Se eles aparecessem, poderia convidá-los para o jantar em carne e osso (pelo menos eu tinha ganhado umas novinhas depois daquela sopa).”, pensei com meus botões.

A ideia pareceu muito plausível, uma vez que eu tinha lá meu passado mediúnico e sabia toda a etiqueta necessária para se comportar à mesa na presença de seres do além. Mas quando me lembrei de todos os protocolos e rituais necessários, confesso que bateu um certo desânimo. Teríamos que ler aquelas coisas de caridade, bondade e profundo amor  cristão. Senti um nojinho que se manifestou na forma de calafrio pela espinha: etiqueta da boazinha, heroína cristã???? Nem a pau!!!!! No fundo eu sabia, que ser “boa” daquele jeito, não tinha mais a ver comigo. Afinal, boa ou má, queria mesmo era ser EU.  Nada contra os preceitos espíritas, mas no fundo do coração, sentia que aquilo era uma coisa bem mofada e velha, e que ficava mais bonita em um museu, não na minha vida. Foi uma etapa, um aprendizado que fazia parte da minha história, porém eu não estava afim de abrir aquele livro outra vez.

Estava viajando na maionese, imaginando um jeito de mandar um email astral para meus parentes, ou talvez  de criar um evento no Facebook denominado “Banquete para a Ancestralidade”, quando fui acordada por alguns berros que vinham da vizinhança.

“FOGO!!! FOGO!!!”

Olhei em direção à balbúrdia e vi uma massa negra de fumaça que rodopiava em direção aos céus. Pessoas saiam de suas residências para ver o que estava acontecendo: parecia ser um incêndio em uma das casas. De repente…. tive uma ideia doida:

“É isso!!!”, pensei em voz alta.

Apertei o passo, pois já estava à poucos metros do pórtico da Casa, e entrei em meu imóvel rápido feito foguete. Corri pelo corredor cheio de portas, voei pela cozinha em direção à porta que dava para o terreiro. Com alegria, vi que as madeiras que alimentaram a fogueira que cozinhou a sopa LEVANTA DEFUNTO repousavam no mesmo lugar. As toras estavam um pouco gastas pelo fogo,  porém, com um pouco de jeito, ainda poderiam se incendiar. Sim meus caros, eu estava decidida a enviar Sinais de Fumaça para convidar os meus.

Uma coisa que fui aprendendo naqueles tempos de Fim do Mundo, é que você precisa sempre estar disposto a desaprender para SABER o que é realmente essencial em cada situação que aparece. Dona Gracinha sempre me dava uma baita rachada quando eu queria (ou não queria) resolver os desafios que a Casa me apresentava, utilizando minhas crenças, hábitos ou condicionamentos antigos como bússola. Sem falar no fato de que, muita coisa que aconteceu por lá, era novidade para mim. Nunca tinha visto livro que voa, reflexos que se tornam “realidade” ou velha que vira bruxa e vice-versa. Minha vida era normal, besta, que nem a da maioria das pessoas. E não porque a vida seja assim, mas é porque olhamos sempre em direção à essas coisas, chamando de tolice, de impossível qualquer outra possibilidade.

Na despensa,peguei uma garrafa de álcool, alguns jornais antigos, uma caixa de fósforos e uma manta velha e parti para a minha missão. Reguei as toras de madeira com o líquido inflamável e ajeitei as folhas de jornal entre as brechas. Contudo, quando ia atear fogo, me veio uma dúvida:

“Peraí, mas eu não sei me comunicar com os mortos por meio da linguagem da Fumaça! Será que tem um ritmo entre um lufo enfumaçado e outro? Ou será que existe um alfabeto, com o qual seja possível “escrever” palavras esfumaçantes no céu? “. disse eu em um diálogo comigo mesma.

Aquilo me desanimou. De que adiantava fazer uma fogueira com fumaça e tudo se eu não sabia como me comunicar por meio dela? Guardei a caixa de fósforos no bolso e já ia voltando para a cozinha com o rabinho entre as pernas quando uma pluma pousou em minha testa. Lembrei então da coruja MENSAGEIRO e do Índio. Sim, o Índio!!!

Não me recordo onde ou com quem aprendi isso, mas sei que índios são mestres na arte de se comunicar por meio de sinais de fumaça. Eles conseguem enviar mensagens para tribos que estão a alguns quilômetros de distância por meio desse dispositivo – tipo um SMS, só que ao invés do celular, eles usam o fogo. Se eu conseguisse chamá-lo, talvez ele topasse me dar uma força nessa empreitada.

Senti que para invocá-lo seria preciso fazer algo que me colocasse em sua sintonia. Instintivamente, passei os dedos na parte chamuscada de uma das toras de madeira e pintei meu rosto com duas listras negras em cada bochecha. Peguei a manta, coloquei-a sobre os ombros e, com os fósforos em mãos, iniciei o processo de acender a fogueira. Levei alguns minutos até que o fogo ganhasse corpo, dando início ao seu balé sensual.

Com a fogueira acesa, deixei que meus instintos mais primitivos viessem à tona. Foi meio difícil no começo, pois a minha mente – a CHATA MENTAL – ficava aporrinhando o saco.

“Isso é ridículo!!! Você não sabe dançar ao redor do fogo! E mesmo se soubesse, é loucura achar que vai tirar um índio da cartola com meia dúzia de rebolados.”, criticou a CHATA MENTAL dentro da minha cabeça.

“Eu só pensei que…”

“Pensou? Pensou nada. Larga essa asneira. Tudo isso é besteira: essa situação, essa Casa, tudo! Você precisa mesmo é arrumar um emprego público, um namorado, casar, ter filhos e parar com essa loucura hippie. Onde já se viu, uma mulher da sua idade?” … interrompeu a mal educada racional.

Já ia cedendo àquela argumentação toda, quando recordei minha aventura com os Incertos no escuro. Eles falavam e davam ordens que nem essa daí. Respirei fundo, fechei os olhos e berrei:

“FOOOOOOODA-SEEEEEEEE!!!!”

Um silêncio delicioso pairou dentro do meu ser e assim comecei a minha dança ao redor do fogo. No começo, eu ficava medindo meus movimentos, achando tudo meio besta, mas aos poucos, fui deixando de lado qualquer pretensão de que eu deveria saber dançar a Dança Sagrada Para Evocar o Xamã do WhatsApp, e me deixei levar pela coisa. Quando dei por mim, estava rindo, pulando, rodopiando, cantando e berrando … tudo ao mesmo tempo! De repente, no meio daquele pagode xamânico dei de cara com o Índio.

“Nossa! Que susto! Você já chegou?”, disse eu.

Ele me olhou com aquela cara carrancuda de sempre sem dizer uma só palavra. Trazia consigo, uma bolsa de couro com umas franjas à tira-colo. Sacou de lá seu tambor e ficou parado, me encarando, sem piscar ou desviar o olhar.

“Ah, não, Seu Índio! Aquela dança maluca do striptease outra vez? Pelo amor de Deus! Mal me recompus da última e você já quer me depenar de novo?”, resmunguei decepcionada, recordando o episódio da sopa LEVANTA DEFUNTO.

“Meu nome é Vara Pau.”, disse ele com uma voz grave, que nem trovão.

“Olha só, você não fala aquele negócio de ‘mim ser índio’.”, deixei escapar sem querer.

“Não Joana! Não precisamos assassinar o bom uso da gramática para provar que somos oriundos de tempos imemoriais. Uma das primeiras coisas que aprendemos é que MIM, assim como qualquer coisa externa aos nossos seres, NÃO FAZ NADA. O EU é quem faz tudo.”, respondeu ele sem alterar a expressão facial.

“Faz sentido.”, concordei.

O silêncio voltou a reinar entre nós. Vara Pau não tirava seus olhos dos meus, me esmagando psicologicamente com seu olhar. Percebi que ele já sabia o motivo de sua presença ali, todavia, não moveria uma palha enquanto eu não “oficializasse” minha solicitação. Imagino que isso fazia parte da burocracia espiritual a que todos nós estamos sujeitos: o livre-arbítrio, o “peça e receba”, ou o “batei e abrir-se vos há”.

“Vara Pau, agradeço sua presença. Eu o invoquei porque necessito de seu auxílio para realizar uma tarefa importante. Quero fazer um jantar para meus ancestrais e preciso convidá-los para o evento. Sei que vocês, índios, são mestres na arte de se comunicar por meio de Sinais de Fumaça. Por isso o chamei.”, disse eu homologando verbalmente meu pedido.

“Pois bem, Joana. Estou aqui para auxilia-la. Mas antes, devo empoderá-la gramaticalmente – já que você abriu o precedente -, quando manifestou seu desejo de querer se comunicar de outras formas. Não sei o que você aprendeu sobre verbos quando frequentou a escola, contudo, percebo ignorância no modo como você se expressa.”, disse Vara Pau com firmeza.

“Primeiro, é importante que você compreenda o que significa o ato da comunicação e o poder que esta ação possui. O como, será uma consequência deste SABER.”, finalizou.

Fiquei surpresa com a colocação do Índio. Não imaginei que teria aulas de sintaxe gramatical para poder me expressar por meio da fumaça. Percebendo minha estranheza com aquela conversa, Vara Pau quebrou o silêncio novamente.

“Comunicar é convidar a Vida para adentrar o seu Universo. É participá-la de suas intenções, de suas vontades. É um esvaziar-se de si mesmo para que ela possa preencher você. Sendo assim, somente uma comunicação empoderada possibilita uma permissão consciente desta participação.”

“???????”,  essa era a minha cara. Não estava entendendo nada.

“Um exemplo. Você não precisa fazer Sinais de Fumaça para convidar seus ancestrais, assim como não precisa falar, não precisa resolver nada, nem mesmo necessita fazer nenhum jantar.”, respondeu o Índio, tentando eliminar as rugas de interrogação da minha testa.

“Eu preciso disso tudo sim.”, falei.

“Não precisa.”

“Preciso.”

“Não, não precisa.”

“Sim, eu preciso!!!!”, disse eu alterada.

“Você QUER. E querer é completamente diferente de precisar. Compreende?”

Aquela resposta calou minha insistência. A ansiedade que brotava cada vez que eu afirmava que PRECISAVA DE desapareceu, assim como a sensação de dúvida, de incerteza que vibrava cada vez que eu utilizava este verbo de ação.

“QUERER é um verbo chave, que, de acordo com a Sintaxe Cósmica, é a O COMANDO CHAVE para dizer ao Universo que você se coloca disponível para a Ação. Sempre que você está de posse de si mesma, assentada em seu próprio Poder, você pode QUERER algo. PRECISAR é o polo oposto. Representa a inconsciência de si mesmo, de sua soberania. Se você PRECISA de algo, então você se esquece de sua verdadeira natureza, entrando na passividade, na falta, na escassez. Neste estado, você cria para si uma realidade de impotência e pobreza. PRECISAR é a enxada com a qual as vítimas capinam seu terreno estéril. Em sua essência, você JAMAIS precisa de nada, absolutamente. Você foi treinada para conjugar este verbo cotidianamente, como uma imposição de sua condição ilusória de vítima a mercê de um mundo insano. Além disso, PRECISAR é um verbo que complementa um insubstantivo ou substantivo ilusório: o MEDO.

“Insubstantivo? Que categoria de palavras é essa?”, indaguei.

“Insubstantivo é uma categoria da linguagem que expressa aquilo que não tem conteúdo,  que não tem substância e o MEDO é o exemplo mais comum e mais poderoso desta categoria gramatical. Ele não tem “sustância”, como dizem por aí. Mas de tanto as pessoas gastarem suas forças, suas energias falando, pensando e agindo a partir dele, ele assume forma… ilusória. Mas esta expressão jamais pode ser classificada como substantivo, seja concreto, próprio ou abstrato. O MEDO NÃO É!

E como ele exerce uma função sintática paralisante, este termo requer verbos passivos como PRECISAR, para se complementar. Verbos ativos como QUERER e SER jamais concordam com este insubstantivo. E exatamente por não possuírem concordância com termos sem substância, eles são as ferramentas mais poderosas de empoderamento e de materialização em nossas vidas, compreende?”

“Não. Eu não compreendo.”, respondi perplexa.

“Façamos um teste bem simples: Repita em voz alta o que vou dizer.”, solicitou Vara Pau.

“EU SOU MEDO. EU QUERO MEDO.”

A vibração daquelas palavras em forma de comando causou um profundo mal estar em meu corpo. Meus ouvidos foram acometidos de uma dor aguda e meu estômago começou a doer. Minha mente, parecia ter sido arrancada de um sono profundo, pois um ruído estrondoso e estranho a chamou para a realidade. Dizer aquilo não fazia sentido, não havia concordância naquela frase. Quem, em sã consciência solicita o MEDO? Ou é o MEDO?

Confesso que sentiria menos “gastura”, se o Índio me solicitasse para reproduzir pérolas do português como “Isto é para mim fazer.”, “Queira menas coisas.”, ou talvez “Você está meia errada.”. Depois dessa experiência abrupta de despertar linguístico, essas discordâncias viraram poesia para meus ouvidos.

“Compreendi, Vara Pau. Meu corpo não aceita tamanho analfabetismo cósmico, não mais. Não consigo pronunciar essas palavras porque elas não têm nexo. E percebo que realmente NÃO PRECISO de nada. Percebo também que eu escolhi vivenciar essa e muitas outras situações. Logo, EU QUERO resolvê-las, mas não PRECISO.”, respondi com a respiração ofegante, fruto do mal estar físico que aquelas asneiras semânticas me causaram.

“Pois bem Joana. Para se comunicar, seja por meio da Linguagem de Fumaça ou de qualquer outro mecanismo de sua escolha, você precisa conectar-se com o centro máximo de sabedoria do seu SER: o coração. É ele o ponto original no qual surge o que será dito e o que quer ser silenciado. Por isso trouxe meu tambor. Ele irá ajudá-la a reconectar-se com esta parte fundamental do seu ser. Além disso, sem o coração, os Sinais de Fumaça não funcionam.”, esclareceu Vara Pau.

“Ah, não?! Que interessante! Pensei que era só acender o fogo e, com uma manta, ir controlando a emissão de fumaça para o céu. Tipo um Código Morse.”, respondi achando tudo aquilo muito interessante.

“Olhe para a fogueira”, solicitou ele.

Olhei para o lado e vi que tinha fogo … mas não havia nem sinal da fumaça. Fiquei espantada com aquilo!

“Virgem Santa! Cadê a fumaça????”, perguntei assustada.

“Só há fumaça, onde tem fogo.”, respondeu Vara Pau.

“Mas a fogueira está acesa.”

“Mas seu coração está apagado.”, finalizou ele.

O Índio tomou minha mão esquerda e colocou-a em minha garganta, perto da jugular. Percebi que ele queria que eu tomasse consciência dos meus batimentos cardíacos. Ao tocar minha pele naquele ponto, notei um batuque fraco, era quase imperceptível.

Ele tomou o tambor nas mãos e começou a tocar. Aos poucos, a frequência de pulsações do meu coração entrou em sincronia com as batidas do instrumento e percebi que entrei em um estado de imensidão silenciosa muito profundo. De repente,vi em minha tela mental um pássaro muito lindo. Ele tinha penas muito coloridas e era grande, robusto, feito um pavão. Ele veio voando em minha direção e pousou em uma árvore de frente para mim. A ave me fitava com seus olhos vermelhos e instintivamente, enfiei a mão no bolso (nem sabia que tinha bolso na minha roupa) e tirei dali um papel em branco. Ela começou a cantar… um canto muito antigo, que eu conhecia mas não sabia de onde.

A medida que a canção ecoava, vários nomes começaram a surgir magicamente no papel, que, foi, aos poucos, perdendo sua brancura. Anastácia Betti, Licurgo Radicchi, Caterina Betti, Ernesto Monteiro, Rita Monteiro, Domenico Barbini … alguns nomes conhecidos, outros completamente estranhos. Percebi que eram meus ancestrais. O pássaro os chamava pelo nome, enquanto cantava, e estes iam sendo impressos. Apareceram também símbolos e formas geométricas, e, em alguns momentos o pássaro cantava nomes com sons e fonemas que seriam impronunciáveis por qualquer humano. Acho, que nessa hora ele chamava uma parentada distante, de outros planetas, galáxias, mas que também eram família e, por isso, faziam parte do trololó todo. Quando a lista estava completa, o canto cessou. Dei à ele o bilhete. Com o recado no bico, voou em direção aos céus e desapareceu.

Ao abri os olhos, notei que saía muita fumaça da fogueira e ela ia obedecendo as pulsações do meu coração e do tambor. Era lindo, que nem eu tinha imaginado que seria. As nuvens negras subindo aos céus em pequenas porções, dançando ao som das batidas.

Ficamos assim, Vara Pau e eu por um tempo. Em um dado momento, intui que todos os meus ancestrais tinham sido convidados, não faltava ninguém. Vara Pau, ouviu com sua alma minha sensação e silenciou o tambor. Calmamente, fui até a pia da cozinha, enchi um balde d’água e apaguei a fogueira. O Índio desapareceu no meio da névoa de fumo que subiu quando o fogo foi subitamente interrompido.

Agora, com os convites oficialmente despachados … a festa ia começar. Eu tinha um banquete para os mortos para preparar.

CONTINUA…

POETRY-Healing-Shaman

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A verdadeira história do fim do mundo – Parte XIV

“Senha número zero, favor dirigir-se ao guichê de número dezenove.” cantarolou a moça do alto-falante.

Fechei o livro das laranjas muito pensativa sobre o assunto. Esse negócio de Deus, ilusões pelas metades … hum … isso renderia uma boa conversa com o Seu Beleza Pura. Decidi que assim que resolvesse a treta com as Poeiras Fugitivas, iria tomar um chá com o dono do mercado para esclarecer minhas dúvidas, que eram inúmeras!

Caminhei serelepe até o local indicado. Atrás da mesa, um homem baixinho, de bigodes e óculos na ponta do nariz me aguardava sorridente. Ele tinha um aeroporto de mosquitos em fase avançada de consturção, mais elegantemente conhecido como “careca”.

“Bom dia Srta. Joana! O Banco Karma Beth lhe dá as boas vindas. Há eons aguardamos sua visita. Em que posso ser-lhe útil?”, disse o Sr. S. Germain, cujo nome estava escrito no crachá.

“Bom dia, Sr. S. Germain. Então … não sei bem por onde começar.”, respondi meio atrapalhada, tentando tirar o bolo de contas da pasta, sem bagunçar a organização que a Srta. Piedade havia providenciado.

“Ah sim! Você veio colocar a sua história em ordem, não é mesmo?”, disse o Sr. S. Germain, com um sorriso calmo enquanto apanhava o bolo de contas.

“Minha história não, a minha está bem, sem contas. Mas a da minha familia, vixi … um trololó! Penso que, desse jeito, meus ancestrais só podiam assinar seus nomes com tinta vermelha! ”

“Bem, para que a quitação de débitos, recebimento de créditos, transferências de registros e ou cancelamento dos mesmos possam ser efetuados, a primeira regra que a senhora precisa compreender é que: NÃO HÁ REGRAS.”

O Sr. S. Germain viu o meu espanto e foi logo tentando clarear a nuvenzinha negra que se formara em minha face. Ia chover perguntas na fuça dele, se ele não desembuchasse logo que doidisse era aquela.

Banco é um negócio muito parecido com religião. Você deposita fé na instituição, confiança. E daí, eles prometem um mundo de coisas maravilhosas. Créditos ultra mega facilitados, duzentos tipos de poupança e investimentos, um troço de doido! Mas tem sempre umas letrinhas miúdas e engarranchadas no contrato que foram feitas para a gente morrer de preguiça de ler e pular direto para o “onde eu assino?”. Que mané entender que nada, ma passa logo essa caneta porque eu quero aquele carrão!

Só que tem aquela lei da física: a tal da ação e reação. Você toma o empréstimo no banco e larga seu suado dinheirinho lá, como garantia – esta é a ação. E um mês depois chega a reação pelo correio: um boleto cheio de números e não sei mais quantos por centos de juros, taxas e coisas que você TEM QUE PAGAR!  Afinal, isso estava especificado no contrato – exatamente naquela parte que ninguém lê – e ele tem sua assinatura. Agora meu filho, ajoelhou, então reza mesmo!

Contudo o Sr. S. Germain falou esse negócio de “sem regras”. Já saquei minha lupa da bolsa, pronta pra ler cada cocô de mosquito escrito no contrato, que com certeza ele ia me empurrar. Claro que ia! Ele é gerente de banco, ou seja, é amigo do Demo, um fariseu, um pastor arrebanhador de ovelhas preguiçosas e analfabetas. Mas comigo não, violão! Eu ia saber tuuuuuuuuuudinho e ele podia começar já me explicando que novo golpe capitalista era aquele!

“Somos uma instituição 100% sólida. E estamos no mercado das transações kármicas há mais tempo do que o próprio Tempo. Temos vasta expertise no ramo, por isto, posso dizer que, durante este longo período, experimentamos todos os tipos de parâmetros e diretrizes para nossas negociações com os clientes: já utilizamos as leis de mercado “Olho por olho, dente por dente”, “Daí a mão direita, sem que a esquerda saiba”, “Perdoai 70 vezes 7 vezes”, “Só sei que nada sei” e várias outras. Todas estas regras, são eficazes, muito eficazes e ainda se encontram à disposição do cliente mais conservador que queira movimentar seus recursos por meio de nosso banco.

Contudo, Srta. Joana, os tempos são outros, cosmicamente modernos. Além do excesso de informação que tem varrido o mundo, houve também o forte lobby sobre o Apocalipse e o aniquilamento do planeta. Isto fez com que nossa instituição precisasse se adaptar às transformações e a um novo tipo de clientela. As pessoas, hoje, tem pressa e, produtos como a Conta Corrente são um atraso de vida. Isto porque elas precisam estar livres de correntes e contas para ter a tranquilidade necessária de modo à viver suas vidas, produzir e prosperar.  Para isto, criamos um novo tipo de abordagem, mais simples e eficaz. Nos a chamamos de BB: BORRACHA E BALANÇA.”

” AHM?”, foi a melhor coisa que consegui pronunciar.

“Sim, Borracha e Balança. O Banco Karma fornece à senhorita os dois dispositivos gratuitamente. De posse deles, o procedimento é o seguinte: você posiciona a conta em um dos pratos da balança. Se ele pesar, significa um débito, e, em tese, é algo a ser quitado. Antigamente, nos aconselharíamos que, uma vez notificada a conta em vermelho, a senhorita deveria escolher um dos 10 mandamentos, um versículo da Bíblia ou do Alcorão, um trecho do Torá ou até mesmo uma das leis herméticas para proceder à quitação da dívida. Mas isso, muitas vezes, provou ser ineficaz, pois o Jurisdiques Religioso é enfadonho e de difícil compreensão. E este embaraço cognitivo gerou muitos erros de interpretação e por consequência dificulta ou até mesmo impossibilita o pagamento da dívida. Muitos clientes precisaram retornar ao banco mais de uma vez para que pudessem se ver livres de uma única conta de Luz Interna.”

“Luz Interna? É aquele negócio da CEMIG?” perguntei sem entender nada.

“Mais ou menos. A Luz da CEMIG clareia, mas é muito limitada.”, respondeu ele sem querer dar mais explicações.

“Uma vez finalizada a etapa da Balança, o cliente tem as seguintes opções:

– proceder o pagamento normal da dívida;

– ignorar a dívida, com a opção de sentir-se um devedor ou não diante de sua escolha;

– utilizar a Borracha e apagar o débito de seus registros.”

“Vc está querendo dizer que eu posso simplesmente apagar esse bolo de contas do mapa assim, num passe de mágica????? Não, não, não, Sr. S. Germain, isto está errado! Se você deve, você paga. Esta é a lei!”, disparei contrariada, me sentindo uma besta ludibriada por aquele baixote careca.

“Minha família pisou na bola, Sr. S. Germain. Tomou muita coisa emprestada, utilizou mal e não devolveu um tostão. Isso está errado! Até a sacana da Punhetinha sabe disso e inclusive é mais uma a me lembrar desta ancestral ignorância dos meus. Eu sei que ser uma pessoa direita é algo que requer suor, sacrifício. Então não me venha com essa de Borracha. Pode desembuchar o quanto eu devo… doa a quem doer.”, prossegui com a voz cheia de drama épico.

O gerente me olhou fundo nos olhos. Parecia até que ele era uma máquina de tomografia computadorizada, daquelas que lê até a sombra do pensamento. E disse:

“Certo e errado são conceitos que não fazem parte da missão desta empresa, Srta. Joana. Nosso objetivo é auxiliar nossos clientes a movimentar suas experiências de vida da maneira que melhor lhes convém. Não cabe a nós negar empréstimo a um lobo, quer dizer, pastor, para que este compre mais ovelhas e aumente seu negócio. Todos têm direito de obter recursos e meios para experimentar suas vidas… mesmo que seja uma vida de espertalhão ou de imbecil.

A Borracha é altamente indicada, principalmente em casos como o da Srta., que deverá regularizar uma situação, que teoricamente não foi construída por você, mas que, mesmo assim, lhe foi legada. Antes deste método, o alto índice de clientes raivosos e inconformados com o pagamento total de dívidas kármicas de seus parentes era altíssimo. Eles ficavam revoltados com o que chamavam de estupidez de seus antepassados e o trabalho que tinham para resolver tais pendências – apesar de que a maioria, repete os mesmos passos e vêm aqui pedir socorro, após contrair as mesmas dívidas.  Nem sempre a herança é um legado feliz deixado pelos mortos. Mas cá estamos para torná-la uma experiência rica na vida de quem a recebe.”, finalizou o gerente.

Mais uma vez, lá estava eu, com o rabinho entre as pernas, com o ego desarmado pelo óbvio e pelo mais simples. Desde que tomei posse do espólio familiar que me foi legado (segundo o bilhete miraculosamente escrito com a minha letra que encontrei na Casa assim que cheguei, o imóvel me foi dado por uma versão antiga de mim mesma), posso dizer que a minha maior riqueza, até aquele momento, foram as lições que aprendi desde que lá aterrizei. Quem era eu antes da Casa? Prefiro não responder esta pergunta e virar a página…

“Pois bem, Sr. S. Germain, o senhor me convenceu deste método BB. Acredito que será bom para mim exercer o live-arbitrio e fazer minhas próprias escolhas para lidar com esta parte financeira de minha existência. Eu nunca gostei muito desse negócio de que TEM QUE  para CONSEGUIR (complete como quiser a frase). Respostas como: porque sim, porque Deus quis… etc, nunca aplacaram a sede da minha alma. Mas antes de assinar o contrato, tenho uma última dúvida.”, disse eu resoluta.

“Pois não. Pergunte o que quiser.”

“Como é que fica o Banco se todo mundo resolver simplesmente passar a Borracha em todos os débitos e ninguém mais pagar nada? Não seria o fim declarado do Banco Karma?”, perguntei com olhos agudos, apontados feito flechas na direção do gerente.

 

CONTINUA …

 

Artigo 190 - Em busca do equilíbrio financeiro

 

 

 

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SYRINX

Syrinx … a flauta … ou a ninfa? Quando o amor resolve materializar-se em Música não existem tais distinções ou limites. Se um dia, você quiser escapar do abraço do Amor, ele irá perseguí-lo, tocá-lo… e talvez seu corpo ganhe curvas de violino, e seus tímpanos ressoem alto…

Syrinx era ninfa, que corria na floresta… feito uma caçadora, seguidora da Deusa Artemis. Caçadores não têm pulso para Música nem ouvidos para o Amor, eles miram, flecham e depois… nada, até que o próximo alvo se apresente. E Syrinx era assim… linda e certeira feito uma flecha de caça. Aguda, como só os olhos podem ser … ouvidos não são assim, eles são expansivos.

Eis que um dia Syrinx estava na floresta, caçando um bicho, um desejo, uma coisa, um sonho. Lá estava ela, com seus olhos agudos e suas flechas, pronta para o combate. Porém, sua pele desavisada não percebeu quando, de caçadora…ela transformara-se em caça. Havia um segundo par de olhos certeiros no jogo, ávidos para possuir tanta beleza e tamanha liberdade selvagem. Eram os olhos de Pan, o deus meio homem meio bode que guardava aquelas redondezas.

Ele mirava, embriagado, a maravilha diante de seus olhos… e movido por desejos de bode, aproximou-se da ninfa. Ninfas, como o bom feminino manda, são fluidas, e Pan queria possuí-la com suas patas de bicho. Não é preciso dizer, que a abordagem foi mal sucedida… o deus foi frustrado em suas intenções.

Porém, o masculino não é dado a desistências… baseado em sua infame crença de que talvez, o Não seja um Sim escrito com outras letras. E movido por tal ideia… manteve-se insistente em suas intenções.

Sem ter o que fazer, diante daquele ser tosco e duro feito porta, … Syrinx correu, desembestada, floresta à dentro… para tentar escapar daquele arroubo de paixão. Correu… e De repente, deparou-se com um rio… era o fim.

Lembrou-se das ninfas que habitavam aquelas águas e decidiu pedir-lhes ajuda:

“Me salvem! Eis que o Amor em forma de bode me persegue! Acudam!”

As ninfas, compadecidas do tormento da companheira, a trouxeram para as águas e a transformaram num punhado de bambus. Isto sim, iria dar um jeito naquele deus louco e desvairado de Amor.

Pan, ao alcançar o rio, sentiu uma dor aguda no peito ao perceber que sua amada… agora, era um punhado de juncos ocos. E suspirou profundo de tristeza…

Mas o Amor… transforma tudo, até a tristeza ganha uma cor inexplicável…

Esse suspiro reverberou por dentro do bambu e fez com que uma melodia doída, e misteriosa vibrasse. Aquilo animou o coração dele … sua amada, respondia, de alguma forma, seu  esforço de amor.

Cortou os juncos e fez uma flauta…

Sempre que a saudade é grande, ele vai para a beira do rio… tocar sua bela Syrinx, que ao resistir ao abraço do Amor, padeceu ninfa e foi transmutada em Música, um grande e calmo suspiro… que acalma a ausência que aperta o coração, atrevido e amoroso de Pan.

… e este foi o único casamento possível entre o deus meio bode meio homem e a ninfa caçadora, sem tempo e ouvidos para o Amor.

 

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A verdadeira história do Fim do Mundo – Parte XIII

” Há muito, muito tempo atrás, Deus estava entediado, cansado de sua Vida Divina e resolveu espairecer um pouco as ideias. ”

Assim começava o primeiro capítulo do livro da laranja.

“Lá vem essas histórias de Deus… ô diacho de Ser Onifoda que fica cansado, entediado… cruzes! Acho que ele devia procurar um psicólogo ou quem sabe, essa Apatia Divina seja falta de vitamina B12?”, pensei com meus botões.

Mesmo contrariada por tudo começar à partir da Humanidade do Todo-Poderoso outra vez, continuei lendo a história.

” Foi caminhando por entre galáxias e constelações – tudo criação sua – admirando como elas eram inteiras, perfeitas e graciosas em seus movimentos. Elas não queriam nada, não almejavam nada. Seguiam se contraindo e expandindo, morrendo e renascendo, num movimento completamente atemporal.

‘As coisas inteiras são belas.’, disse Ele para Si mesmo.

‘Mas a beleza das coisas às vezes Me cansa. Ver tudo sempre bonito, dá um pouco de preguiça. E se elas não fossem mais inteiras, ou pelo menos, fossem mas se esquecessem de que sua natureza integral? O que aconteceria?’, questionou o Salve-Salve.

À titulo de experiência, vestiu Seu jaleco branco, catou um planeta qualquer e levou até o Seu Centro de Pesquisas em Alquimia Cósmica. Ele pegou o corpo celeste, que dançava divinamente, e dividiu-o ao meio. O movimento de rotação da cobaia ficou perneta.  Virava de um jeito contorcido, estranho…parecia até que sentia uma certa aflição.

À medida que Deus foi aproximando a metade decepada do planeta da outra metade, seu ballet foi se tornando cada vez mais gracioso, mais leve, até que, quando as partes se uniram e Ele passou cola Super-Bonder, a harmonia cinética voltou a reinar para a cobaia.

Deus achou aquele movimento de harllem dance que o planeta manqueba fez muito interessante. Não era bom nem ruim, era só diferente.

Porém, o Divino tinha um lado bastante sacana. Quando era pequeno, seu Pai fazia todas as suas OniVontades e por isso, a Criança Divina era dada à perversidades. Coisa à toa, tipo criar raças alienígenas que querem conquistar o Universo, brincar de Segunda Guerra Mundial, esconder a Verdade dos que a buscam, e claro… amarrar o rabo de um cachorro no outro e ver o circo pegar fogo.””

Lembrei-me da história que Sacerdote havia me contado na noite em que lutei contra meu medo do escuro e aqueles Incertos patetas. Soltei um suspiro de alívio por reconhecer que havia vencido uma etapa na vida e prossegui com a leitura.

O livro continuava assim:

“E foi então que o Todo-Poderoso concebeu uma ideia engenhosa. Ele podia ser meio mutreteiro, mas Sua Inteligência Celestial era imbatível. Percebendo a dificuldade de um corpo, que antes era inteiro, de caminhar quando era só uma parte, ele pensou que seria estimulante criar seres que acreditam ser metade, quando na verdade são o Todo.

Deus ficou animadíssimo e apelidou sua mais nova criação de  “novela”. Para isso, construiu estruturas às quais deu o nome de “personagens”. Eles tinham tamanhos, cores e texturas diferentes. E para promover a mesma cinética que movimenta os planetas e galáxias ele implementou nesses corpos uma força, chamada “romance”.

O romance nada mais é do que a ilusão de ótica criada pela tal força do Criador na qual, quando o tal personagem se via no espelho ele sentia uma angustia do tipo : “Putz! Tá faltando um pedaço!!!”. Esta sensação o levava à olhar para os lados em busca de outras superfícies refletoras que pudessem refletir de volta a imagem da parte faltante de modo que a harmonia cinética naquele corpo voltasse à reinar.

E assim, deu início à todas as novelas, relacionamentos, casamentos, puladas de cerca e todo tipo de trololó que, nós, os seres humanos – ou melhor, os PERSONAGENS – conhecemos e vivemos todos os dias.

Toda noite, o Divino providenciava um balde de pipoca e sentava confortavelmente em sua poltrona para assistir à tal novela. Ele chorava, ria, xingava os Personagens:

” Haroldo, seu idiota, a Marleide não é para o seu bico! Olha pro lado, bestão, a Glaucilene tá te dando bola e é ela quem reflete o pedaço ideal que você jura estar faltando!”, berrava o Onipotente super envolvido na trama!

Os Personagens dividiam-se em duas categorias básicas: os ativos – que foram categorizados de homens, coisa que eles mesmos inventaram, pois não se tratava de um ser ativo mas de um princípio vital que animava as criações da novela – e os passivos, chamados de mulheres, que ganharam o apelido de “Amélia”.

E os Personagens prosseguiam na sua dança desengonçada em busca da tal metade. Todo dia tinha um ativo procurando um passivo, e vice-versa. Tinha ativo com ativo e passivo com passivo. O negócio é que lá na novela todo mundo encasquetou que era só metade e que tinha que achar a outra metade.

Tinha uns enredos interessantes, de princípe que salva, mulher maravilha, relacionamento aberto. O povo, naquele desgoverno, era super criativo.

Só tinha uma questão: quando os personagens viam seus reflexos uns nos outros, eles iam correndo, babando em direção à sua metade, mas se esqueciam que aquilo era uma imagem projetada e que o indivíduo refletor tinha a sua tretinha humana escondida atrás da porta. Então, o que antes parecia um ballet perfeito virava uma briga de foice e um chororô dos infernos.

Era um tal de “ligar pra amiga” para desfiar o rosário de como o Clodoaldo pisara nos mais nobres sentimentos da Francislaine e xingar de todos aqueles nomes lindos. Poucos conseguiam sacar o jogo e tratar de se apropriar da sua própria metade negligenciada. Quando esses personagens descobriam a trama, conseguiam finalmente compreender sua Natureza Divina e enxergavam finalmente seus corpos redondos e INTEIROS. Sim, eles eram laranjas deliciosas suculentas e se maravilhavam com a descoberta!

Uma vez solucionada a charada, eles e elas tratavam de ir na Loja Lua de Mel e compravam aquelas facas de serrinha da Tramontina, excelentes para descascar laranjas. Afinal, eles saiam da novela mas percebiam que não se pode chupar a tal fruta sem antes retirar-lhe a casca.”

“Número Zero, favor dirigir-se ao guiche 19”., disse uma voz no alto-falante.

“Poxa! Justo agora que eu ia começar a descascar a laranja!”, pensei fechando o livro enquanto me dirigia ao local indicado.

CONTINUA…2131

 

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