A verdadeira história do Fim do Mundo – Parte XIII

” Há muito, muito tempo atrás, Deus estava entediado, cansado de sua Vida Divina e resolveu espairecer um pouco as ideias. ”

Assim começava o primeiro capítulo do livro da laranja.

“Lá vem essas histórias de Deus… ô diacho de Ser Onifoda que fica cansado, entediado… cruzes! Acho que ele devia procurar um psicólogo ou quem sabe, essa Apatia Divina seja falta de vitamina B12?”, pensei com meus botões.

Mesmo contrariada por tudo começar à partir da Humanidade do Todo-Poderoso outra vez, continuei lendo a história.

” Foi caminhando por entre galáxias e constelações – tudo criação sua – admirando como elas eram inteiras, perfeitas e graciosas em seus movimentos. Elas não queriam nada, não almejavam nada. Seguiam se contraindo e expandindo, morrendo e renascendo, num movimento completamente atemporal.

‘As coisas inteiras são belas.’, disse Ele para Si mesmo.

‘Mas a beleza das coisas às vezes Me cansa. Ver tudo sempre bonito, dá um pouco de preguiça. E se elas não fossem mais inteiras, ou pelo menos, fossem mas se esquecessem de que sua natureza integral? O que aconteceria?’, questionou o Salve-Salve.

À titulo de experiência, vestiu Seu jaleco branco, catou um planeta qualquer e levou até o Seu Centro de Pesquisas em Alquimia Cósmica. Ele pegou o corpo celeste, que dançava divinamente, e dividiu-o ao meio. O movimento de rotação da cobaia ficou perneta.  Virava de um jeito contorcido, estranho…parecia até que sentia uma certa aflição.

À medida que Deus foi aproximando a metade decepada do planeta da outra metade, seu ballet foi se tornando cada vez mais gracioso, mais leve, até que, quando as partes se uniram e Ele passou cola Super-Bonder, a harmonia cinética voltou a reinar para a cobaia.

Deus achou aquele movimento de harllem dance que o planeta manqueba fez muito interessante. Não era bom nem ruim, era só diferente.

Porém, o Divino tinha um lado bastante sacana. Quando era pequeno, seu Pai fazia todas as suas OniVontades e por isso, a Criança Divina era dada à perversidades. Coisa à toa, tipo criar raças alienígenas que querem conquistar o Universo, brincar de Segunda Guerra Mundial, esconder a Verdade dos que a buscam, e claro… amarrar o rabo de um cachorro no outro e ver o circo pegar fogo.””

Lembrei-me da história que Sacerdote havia me contado na noite em que lutei contra meu medo do escuro e aqueles Incertos patetas. Soltei um suspiro de alívio por reconhecer que havia vencido uma etapa na vida e prossegui com a leitura.

O livro continuava assim:

“E foi então que o Todo-Poderoso concebeu uma ideia engenhosa. Ele podia ser meio mutreteiro, mas Sua Inteligência Celestial era imbatível. Percebendo a dificuldade de um corpo, que antes era inteiro, de caminhar quando era só uma parte, ele pensou que seria estimulante criar seres que acreditam ser metade, quando na verdade são o Todo.

Deus ficou animadíssimo e apelidou sua mais nova criação de  “novela”. Para isso, construiu estruturas às quais deu o nome de “personagens”. Eles tinham tamanhos, cores e texturas diferentes. E para promover a mesma cinética que movimenta os planetas e galáxias ele implementou nesses corpos uma força, chamada “romance”.

O romance nada mais é do que a ilusão de ótica criada pela tal força do Criador na qual, quando o tal personagem se via no espelho ele sentia uma angustia do tipo : “Putz! Tá faltando um pedaço!!!”. Esta sensação o levava à olhar para os lados em busca de outras superfícies refletoras que pudessem refletir de volta a imagem da parte faltante de modo que a harmonia cinética naquele corpo voltasse à reinar.

E assim, deu início à todas as novelas, relacionamentos, casamentos, puladas de cerca e todo tipo de trololó que, nós, os seres humanos – ou melhor, os PERSONAGENS – conhecemos e vivemos todos os dias.

Toda noite, o Divino providenciava um balde de pipoca e sentava confortavelmente em sua poltrona para assistir à tal novela. Ele chorava, ria, xingava os Personagens:

” Haroldo, seu idiota, a Marleide não é para o seu bico! Olha pro lado, bestão, a Glaucilene tá te dando bola e é ela quem reflete o pedaço ideal que você jura estar faltando!”, berrava o Onipotente super envolvido na trama!

Os Personagens dividiam-se em duas categorias básicas: os ativos – que foram categorizados de homens, coisa que eles mesmos inventaram, pois não se tratava de um ser ativo mas de um princípio vital que animava as criações da novela – e os passivos, chamados de mulheres, que ganharam o apelido de “Amélia”.

E os Personagens prosseguiam na sua dança desengonçada em busca da tal metade. Todo dia tinha um ativo procurando um passivo, e vice-versa. Tinha ativo com ativo e passivo com passivo. O negócio é que lá na novela todo mundo encasquetou que era só metade e que tinha que achar a outra metade.

Tinha uns enredos interessantes, de princípe que salva, mulher maravilha, relacionamento aberto. O povo, naquele desgoverno, era super criativo.

Só tinha uma questão: quando os personagens viam seus reflexos uns nos outros, eles iam correndo, babando em direção à sua metade, mas se esqueciam que aquilo era uma imagem projetada e que o indivíduo refletor tinha a sua tretinha humana escondida atrás da porta. Então, o que antes parecia um ballet perfeito virava uma briga de foice e um chororô dos infernos.

Era um tal de “ligar pra amiga” para desfiar o rosário de como o Clodoaldo pisara nos mais nobres sentimentos da Francislaine e xingar de todos aqueles nomes lindos. Poucos conseguiam sacar o jogo e tratar de se apropriar da sua própria metade negligenciada. Quando esses personagens descobriam a trama, conseguiam finalmente compreender sua Natureza Divina e enxergavam finalmente seus corpos redondos e INTEIROS. Sim, eles eram laranjas deliciosas suculentas e se maravilhavam com a descoberta!

Uma vez solucionada a charada, eles e elas tratavam de ir na Loja Lua de Mel e compravam aquelas facas de serrinha da Tramontina, excelentes para descascar laranjas. Afinal, eles saiam da novela mas percebiam que não se pode chupar a tal fruta sem antes retirar-lhe a casca.”

“Número Zero, favor dirigir-se ao guiche 19”., disse uma voz no alto-falante.

“Poxa! Justo agora que eu ia começar a descascar a laranja!”, pensei fechando o livro enquanto me dirigia ao local indicado.

CONTINUA…2131

 

Anúncios

Sobre BruxaMustang

Eu sou eu. Já uma amiga, me disse que sou uma acidez que refresca.
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s