A verdadeira história do fim do mundo – Parte XIV

“Senha número zero, favor dirigir-se ao guichê de número dezenove.” cantarolou a moça do alto-falante.

Fechei o livro das laranjas muito pensativa sobre o assunto. Esse negócio de Deus, ilusões pelas metades … hum … isso renderia uma boa conversa com o Seu Beleza Pura. Decidi que assim que resolvesse a treta com as Poeiras Fugitivas, iria tomar um chá com o dono do mercado para esclarecer minhas dúvidas, que eram inúmeras!

Caminhei serelepe até o local indicado. Atrás da mesa, um homem baixinho, de bigodes e óculos na ponta do nariz me aguardava sorridente. Ele tinha um aeroporto de mosquitos em fase avançada de consturção, mais elegantemente conhecido como “careca”.

“Bom dia Srta. Joana! O Banco Karma Beth lhe dá as boas vindas. Há eons aguardamos sua visita. Em que posso ser-lhe útil?”, disse o Sr. S. Germain, cujo nome estava escrito no crachá.

“Bom dia, Sr. S. Germain. Então … não sei bem por onde começar.”, respondi meio atrapalhada, tentando tirar o bolo de contas da pasta, sem bagunçar a organização que a Srta. Piedade havia providenciado.

“Ah sim! Você veio colocar a sua história em ordem, não é mesmo?”, disse o Sr. S. Germain, com um sorriso calmo enquanto apanhava o bolo de contas.

“Minha história não, a minha está bem, sem contas. Mas a da minha familia, vixi … um trololó! Penso que, desse jeito, meus ancestrais só podiam assinar seus nomes com tinta vermelha! ”

“Bem, para que a quitação de débitos, recebimento de créditos, transferências de registros e ou cancelamento dos mesmos possam ser efetuados, a primeira regra que a senhora precisa compreender é que: NÃO HÁ REGRAS.”

O Sr. S. Germain viu o meu espanto e foi logo tentando clarear a nuvenzinha negra que se formara em minha face. Ia chover perguntas na fuça dele, se ele não desembuchasse logo que doidisse era aquela.

Banco é um negócio muito parecido com religião. Você deposita fé na instituição, confiança. E daí, eles prometem um mundo de coisas maravilhosas. Créditos ultra mega facilitados, duzentos tipos de poupança e investimentos, um troço de doido! Mas tem sempre umas letrinhas miúdas e engarranchadas no contrato que foram feitas para a gente morrer de preguiça de ler e pular direto para o “onde eu assino?”. Que mané entender que nada, ma passa logo essa caneta porque eu quero aquele carrão!

Só que tem aquela lei da física: a tal da ação e reação. Você toma o empréstimo no banco e larga seu suado dinheirinho lá, como garantia – esta é a ação. E um mês depois chega a reação pelo correio: um boleto cheio de números e não sei mais quantos por centos de juros, taxas e coisas que você TEM QUE PAGAR!  Afinal, isso estava especificado no contrato – exatamente naquela parte que ninguém lê – e ele tem sua assinatura. Agora meu filho, ajoelhou, então reza mesmo!

Contudo o Sr. S. Germain falou esse negócio de “sem regras”. Já saquei minha lupa da bolsa, pronta pra ler cada cocô de mosquito escrito no contrato, que com certeza ele ia me empurrar. Claro que ia! Ele é gerente de banco, ou seja, é amigo do Demo, um fariseu, um pastor arrebanhador de ovelhas preguiçosas e analfabetas. Mas comigo não, violão! Eu ia saber tuuuuuuuuuudinho e ele podia começar já me explicando que novo golpe capitalista era aquele!

“Somos uma instituição 100% sólida. E estamos no mercado das transações kármicas há mais tempo do que o próprio Tempo. Temos vasta expertise no ramo, por isto, posso dizer que, durante este longo período, experimentamos todos os tipos de parâmetros e diretrizes para nossas negociações com os clientes: já utilizamos as leis de mercado “Olho por olho, dente por dente”, “Daí a mão direita, sem que a esquerda saiba”, “Perdoai 70 vezes 7 vezes”, “Só sei que nada sei” e várias outras. Todas estas regras, são eficazes, muito eficazes e ainda se encontram à disposição do cliente mais conservador que queira movimentar seus recursos por meio de nosso banco.

Contudo, Srta. Joana, os tempos são outros, cosmicamente modernos. Além do excesso de informação que tem varrido o mundo, houve também o forte lobby sobre o Apocalipse e o aniquilamento do planeta. Isto fez com que nossa instituição precisasse se adaptar às transformações e a um novo tipo de clientela. As pessoas, hoje, tem pressa e, produtos como a Conta Corrente são um atraso de vida. Isto porque elas precisam estar livres de correntes e contas para ter a tranquilidade necessária de modo à viver suas vidas, produzir e prosperar.  Para isto, criamos um novo tipo de abordagem, mais simples e eficaz. Nos a chamamos de BB: BORRACHA E BALANÇA.”

” AHM?”, foi a melhor coisa que consegui pronunciar.

“Sim, Borracha e Balança. O Banco Karma fornece à senhorita os dois dispositivos gratuitamente. De posse deles, o procedimento é o seguinte: você posiciona a conta em um dos pratos da balança. Se ele pesar, significa um débito, e, em tese, é algo a ser quitado. Antigamente, nos aconselharíamos que, uma vez notificada a conta em vermelho, a senhorita deveria escolher um dos 10 mandamentos, um versículo da Bíblia ou do Alcorão, um trecho do Torá ou até mesmo uma das leis herméticas para proceder à quitação da dívida. Mas isso, muitas vezes, provou ser ineficaz, pois o Jurisdiques Religioso é enfadonho e de difícil compreensão. E este embaraço cognitivo gerou muitos erros de interpretação e por consequência dificulta ou até mesmo impossibilita o pagamento da dívida. Muitos clientes precisaram retornar ao banco mais de uma vez para que pudessem se ver livres de uma única conta de Luz Interna.”

“Luz Interna? É aquele negócio da CEMIG?” perguntei sem entender nada.

“Mais ou menos. A Luz da CEMIG clareia, mas é muito limitada.”, respondeu ele sem querer dar mais explicações.

“Uma vez finalizada a etapa da Balança, o cliente tem as seguintes opções:

– proceder o pagamento normal da dívida;

– ignorar a dívida, com a opção de sentir-se um devedor ou não diante de sua escolha;

– utilizar a Borracha e apagar o débito de seus registros.”

“Vc está querendo dizer que eu posso simplesmente apagar esse bolo de contas do mapa assim, num passe de mágica????? Não, não, não, Sr. S. Germain, isto está errado! Se você deve, você paga. Esta é a lei!”, disparei contrariada, me sentindo uma besta ludibriada por aquele baixote careca.

“Minha família pisou na bola, Sr. S. Germain. Tomou muita coisa emprestada, utilizou mal e não devolveu um tostão. Isso está errado! Até a sacana da Punhetinha sabe disso e inclusive é mais uma a me lembrar desta ancestral ignorância dos meus. Eu sei que ser uma pessoa direita é algo que requer suor, sacrifício. Então não me venha com essa de Borracha. Pode desembuchar o quanto eu devo… doa a quem doer.”, prossegui com a voz cheia de drama épico.

O gerente me olhou fundo nos olhos. Parecia até que ele era uma máquina de tomografia computadorizada, daquelas que lê até a sombra do pensamento. E disse:

“Certo e errado são conceitos que não fazem parte da missão desta empresa, Srta. Joana. Nosso objetivo é auxiliar nossos clientes a movimentar suas experiências de vida da maneira que melhor lhes convém. Não cabe a nós negar empréstimo a um lobo, quer dizer, pastor, para que este compre mais ovelhas e aumente seu negócio. Todos têm direito de obter recursos e meios para experimentar suas vidas… mesmo que seja uma vida de espertalhão ou de imbecil.

A Borracha é altamente indicada, principalmente em casos como o da Srta., que deverá regularizar uma situação, que teoricamente não foi construída por você, mas que, mesmo assim, lhe foi legada. Antes deste método, o alto índice de clientes raivosos e inconformados com o pagamento total de dívidas kármicas de seus parentes era altíssimo. Eles ficavam revoltados com o que chamavam de estupidez de seus antepassados e o trabalho que tinham para resolver tais pendências – apesar de que a maioria, repete os mesmos passos e vêm aqui pedir socorro, após contrair as mesmas dívidas.  Nem sempre a herança é um legado feliz deixado pelos mortos. Mas cá estamos para torná-la uma experiência rica na vida de quem a recebe.”, finalizou o gerente.

Mais uma vez, lá estava eu, com o rabinho entre as pernas, com o ego desarmado pelo óbvio e pelo mais simples. Desde que tomei posse do espólio familiar que me foi legado (segundo o bilhete miraculosamente escrito com a minha letra que encontrei na Casa assim que cheguei, o imóvel me foi dado por uma versão antiga de mim mesma), posso dizer que a minha maior riqueza, até aquele momento, foram as lições que aprendi desde que lá aterrizei. Quem era eu antes da Casa? Prefiro não responder esta pergunta e virar a página…

“Pois bem, Sr. S. Germain, o senhor me convenceu deste método BB. Acredito que será bom para mim exercer o live-arbitrio e fazer minhas próprias escolhas para lidar com esta parte financeira de minha existência. Eu nunca gostei muito desse negócio de que TEM QUE  para CONSEGUIR (complete como quiser a frase). Respostas como: porque sim, porque Deus quis… etc, nunca aplacaram a sede da minha alma. Mas antes de assinar o contrato, tenho uma última dúvida.”, disse eu resoluta.

“Pois não. Pergunte o que quiser.”

“Como é que fica o Banco se todo mundo resolver simplesmente passar a Borracha em todos os débitos e ninguém mais pagar nada? Não seria o fim declarado do Banco Karma?”, perguntei com olhos agudos, apontados feito flechas na direção do gerente.

 

CONTINUA …

 

Artigo 190 - Em busca do equilíbrio financeiro

 

 

 

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Sobre BruxaMustang

Eu sou eu. Já uma amiga, me disse que sou uma acidez que refresca.
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