A verdadeira história do Fim do Mundo – Parte XV

O Sr. S. Germain suspirou profundo e sorriu. Acredito que era a milésima vez que ele iria responder àquela pergunta capciosa.

“Srta. Joana, o Simples é uma coisa, o Fácil é outra diametralmente oposta. E muito da infelicidade e da dor de cabeça de nossos clientes está em sua mania arraigada de querer sempre transformar as duas ideias em sinônimos. A vida possui suas próprias regras semânticas e poucos estão dispostos a se alfabetizarem nesta cartilha. Existem muitas variáveis que farão com que o uso da Borracha em todas as contas seja praticamente impossível, ainda que se apresente como uma possibilidade. Há clientes aventureiros, que, encontram no pagamento de suas dívidas, experiências mais extremas do que o mais extremo dos esportes radicais e eles amam adrenalina. Outros, são acometidos de forte sentimentos de culpa… o que lhes veta qualquer outra possibilidade que não a de carregar sua cruz, custe o que custar! – e eles amam novelas mexicanas e filmes sobre messias e profetas. Além disso, vários deles alegam que carregar os seus pesos é um bálsamo fisioterápico para sua coluna. Outros ainda, são guiados pelo piloto automático… Um dia, ouviram dizer que, se chega um boleto pelo correio, é imprescindível ir ao banco pagá-lo – o que é verdade. Porém, sem se questionar como, ou para que devem fazer isso, apenas procedem com o que “deve ser feito” e ponto. Não cabe a nós, do banco Karma julgá-los ou interferir em seu processo anestésico.

Eu poderia passar o resto da tarde, citando-lhe exemplos dos mais variados, porém acredito que a Srta. tem mais o que fazer, não é mesmo?”, finalizou o gerente com uma piscadela de olho.

“Sim, sim, Sr. S. Germain, tenho uma lista de coisas pendentes para resolver. Vir ao banco é só uma delas.”, disse eu retomando o foco em minha missão poeirenta.

O homem levantou-se da mesa e foi até uma porta minúscula. Ele adentrou o pequeno umbral. Após uma barulhada de coisas sendo remexidas e desalojadas de seus lugares, ele voltou com uma pequena caixa na mão.

“Aqui estão seus dispositivos de soluções kármicas. Sua Borracha, dependendo do uso precisará ser substituída em alguns anos. Mas fique tranquila, a Srta. saberá exatamente quando isso deverá ser feito.”

O gerente me entregou os dispositivos esboçando um sorrisinho malandro, como quem já se esquivara daquela pergunta maliciosa um cem número de vezes. Percebi com isso, que meu questionamento podia até ser bom, mas não tinha a menor utilidade naquele momento. Que se dane se o Banco Karma falisse!!! Eu tinha uma pilha de contas para liquidar, além de uma Poeira Fugitiva pra pulverizar … o resto era o resto.

Agradeci ao Sr. Saint. Germain pelo seu tempo e tomei nas mãos o meu kit BB. Saí do banco decidida a por um fim naquele trololó financeiro ancestral. E eu que jurava de pé junto que era só enterrar o parente que os “Casos de Família” cairiam no esquecimento … Sabe de nada Inocente! Nem todas as missas do sétimo,  do oitavo ou do vigésimo quinto dia resolviam o assunto.

Ajeitei os documentos assim como os dispositivos bancários na cestinha da Gostosinha, montei na bike e voltei pedalando pra Casa. No caminho, tive uma ideia. Pareceu meio doida no início, mas também, naqueles dias de Fim do Mundo, loucura era a metodologia de ação mais indicada para lidar com as situações que surgiam. Sendo assim, dei corda pra coisa.

Pois bem, imaginei em despachar uns convites astrais, de modo a convocar a parentada do além para uma reunião familiar. Assim, poderíamos discutir, com uns “bons drinks” e petiscos, os rumos do nosso clã, dando um jeito naquele punhado de abacaxis e pepinos que herdei deles para descascar. Pensei em pedir a ajuda de Dona Gracinha para arranjar um jeito maluco de convidar os mortos para um jantar na Casa. Afinal, ela era a PhD em sandices e coisas sem cabimento. Entretanto, me lembrei que a velha deveria estar muito ocupada com suas próprias tretas, tentando dar cabo da lista de Pede Pra Sair, a Poeira. Eu teria então, que me virar com a minha própria malemolência – nome científico para a capacidade de romper com rótulos e crenças no que é ou não possível criar – e armar o esquema com a parentada do além.

Passei no Mercadinho D’Alma e devolvi Gostosinha para o Sr. Beleza Pura. Feito isto, tomei o rumo de Casa sem delongas… Eu tinha pressa!

Enquanto caminhava, pensava em um jeito de me comunicar com a rapaziada do outro lado para oficializar o convite.

“E se eu fizesse uma reunião de mesa branca lá em casa, para evocar os espíritos dos antepassados? Se eles aparecessem, poderia convidá-los para o jantar em carne e osso (pelo menos eu tinha ganhado umas novinhas depois daquela sopa).”, pensei com meus botões.

A ideia pareceu muito plausível, uma vez que eu tinha lá meu passado mediúnico e sabia toda a etiqueta necessária para se comportar à mesa na presença de seres do além. Mas quando me lembrei de todos os protocolos e rituais necessários, confesso que bateu um certo desânimo. Teríamos que ler aquelas coisas de caridade, bondade e profundo amor  cristão. Senti um nojinho que se manifestou na forma de calafrio pela espinha: etiqueta da boazinha, heroína cristã???? Nem a pau!!!!! No fundo eu sabia, que ser “boa” daquele jeito, não tinha mais a ver comigo. Afinal, boa ou má, queria mesmo era ser EU.  Nada contra os preceitos espíritas, mas no fundo do coração, sentia que aquilo era uma coisa bem mofada e velha, e que ficava mais bonita em um museu, não na minha vida. Foi uma etapa, um aprendizado que fazia parte da minha história, porém eu não estava afim de abrir aquele livro outra vez.

Estava viajando na maionese, imaginando um jeito de mandar um email astral para meus parentes, ou talvez  de criar um evento no Facebook denominado “Banquete para a Ancestralidade”, quando fui acordada por alguns berros que vinham da vizinhança.

“FOGO!!! FOGO!!!”

Olhei em direção à balbúrdia e vi uma massa negra de fumaça que rodopiava em direção aos céus. Pessoas saiam de suas residências para ver o que estava acontecendo: parecia ser um incêndio em uma das casas. De repente…. tive uma ideia doida:

“É isso!!!”, pensei em voz alta.

Apertei o passo, pois já estava à poucos metros do pórtico da Casa, e entrei em meu imóvel rápido feito foguete. Corri pelo corredor cheio de portas, voei pela cozinha em direção à porta que dava para o terreiro. Com alegria, vi que as madeiras que alimentaram a fogueira que cozinhou a sopa LEVANTA DEFUNTO repousavam no mesmo lugar. As toras estavam um pouco gastas pelo fogo,  porém, com um pouco de jeito, ainda poderiam se incendiar. Sim meus caros, eu estava decidida a enviar Sinais de Fumaça para convidar os meus.

Uma coisa que fui aprendendo naqueles tempos de Fim do Mundo, é que você precisa sempre estar disposto a desaprender para SABER o que é realmente essencial em cada situação que aparece. Dona Gracinha sempre me dava uma baita rachada quando eu queria (ou não queria) resolver os desafios que a Casa me apresentava, utilizando minhas crenças, hábitos ou condicionamentos antigos como bússola. Sem falar no fato de que, muita coisa que aconteceu por lá, era novidade para mim. Nunca tinha visto livro que voa, reflexos que se tornam “realidade” ou velha que vira bruxa e vice-versa. Minha vida era normal, besta, que nem a da maioria das pessoas. E não porque a vida seja assim, mas é porque olhamos sempre em direção à essas coisas, chamando de tolice, de impossível qualquer outra possibilidade.

Na despensa,peguei uma garrafa de álcool, alguns jornais antigos, uma caixa de fósforos e uma manta velha e parti para a minha missão. Reguei as toras de madeira com o líquido inflamável e ajeitei as folhas de jornal entre as brechas. Contudo, quando ia atear fogo, me veio uma dúvida:

“Peraí, mas eu não sei me comunicar com os mortos por meio da linguagem da Fumaça! Será que tem um ritmo entre um lufo enfumaçado e outro? Ou será que existe um alfabeto, com o qual seja possível “escrever” palavras esfumaçantes no céu? “. disse eu em um diálogo comigo mesma.

Aquilo me desanimou. De que adiantava fazer uma fogueira com fumaça e tudo se eu não sabia como me comunicar por meio dela? Guardei a caixa de fósforos no bolso e já ia voltando para a cozinha com o rabinho entre as pernas quando uma pluma pousou em minha testa. Lembrei então da coruja MENSAGEIRO e do Índio. Sim, o Índio!!!

Não me recordo onde ou com quem aprendi isso, mas sei que índios são mestres na arte de se comunicar por meio de sinais de fumaça. Eles conseguem enviar mensagens para tribos que estão a alguns quilômetros de distância por meio desse dispositivo – tipo um SMS, só que ao invés do celular, eles usam o fogo. Se eu conseguisse chamá-lo, talvez ele topasse me dar uma força nessa empreitada.

Senti que para invocá-lo seria preciso fazer algo que me colocasse em sua sintonia. Instintivamente, passei os dedos na parte chamuscada de uma das toras de madeira e pintei meu rosto com duas listras negras em cada bochecha. Peguei a manta, coloquei-a sobre os ombros e, com os fósforos em mãos, iniciei o processo de acender a fogueira. Levei alguns minutos até que o fogo ganhasse corpo, dando início ao seu balé sensual.

Com a fogueira acesa, deixei que meus instintos mais primitivos viessem à tona. Foi meio difícil no começo, pois a minha mente – a CHATA MENTAL – ficava aporrinhando o saco.

“Isso é ridículo!!! Você não sabe dançar ao redor do fogo! E mesmo se soubesse, é loucura achar que vai tirar um índio da cartola com meia dúzia de rebolados.”, criticou a CHATA MENTAL dentro da minha cabeça.

“Eu só pensei que…”

“Pensou? Pensou nada. Larga essa asneira. Tudo isso é besteira: essa situação, essa Casa, tudo! Você precisa mesmo é arrumar um emprego público, um namorado, casar, ter filhos e parar com essa loucura hippie. Onde já se viu, uma mulher da sua idade?” … interrompeu a mal educada racional.

Já ia cedendo àquela argumentação toda, quando recordei minha aventura com os Incertos no escuro. Eles falavam e davam ordens que nem essa daí. Respirei fundo, fechei os olhos e berrei:

“FOOOOOOODA-SEEEEEEEE!!!!”

Um silêncio delicioso pairou dentro do meu ser e assim comecei a minha dança ao redor do fogo. No começo, eu ficava medindo meus movimentos, achando tudo meio besta, mas aos poucos, fui deixando de lado qualquer pretensão de que eu deveria saber dançar a Dança Sagrada Para Evocar o Xamã do WhatsApp, e me deixei levar pela coisa. Quando dei por mim, estava rindo, pulando, rodopiando, cantando e berrando … tudo ao mesmo tempo! De repente, no meio daquele pagode xamânico dei de cara com o Índio.

“Nossa! Que susto! Você já chegou?”, disse eu.

Ele me olhou com aquela cara carrancuda de sempre sem dizer uma só palavra. Trazia consigo, uma bolsa de couro com umas franjas à tira-colo. Sacou de lá seu tambor e ficou parado, me encarando, sem piscar ou desviar o olhar.

“Ah, não, Seu Índio! Aquela dança maluca do striptease outra vez? Pelo amor de Deus! Mal me recompus da última e você já quer me depenar de novo?”, resmunguei decepcionada, recordando o episódio da sopa LEVANTA DEFUNTO.

“Meu nome é Vara Pau.”, disse ele com uma voz grave, que nem trovão.

“Olha só, você não fala aquele negócio de ‘mim ser índio’.”, deixei escapar sem querer.

“Não Joana! Não precisamos assassinar o bom uso da gramática para provar que somos oriundos de tempos imemoriais. Uma das primeiras coisas que aprendemos é que MIM, assim como qualquer coisa externa aos nossos seres, NÃO FAZ NADA. O EU é quem faz tudo.”, respondeu ele sem alterar a expressão facial.

“Faz sentido.”, concordei.

O silêncio voltou a reinar entre nós. Vara Pau não tirava seus olhos dos meus, me esmagando psicologicamente com seu olhar. Percebi que ele já sabia o motivo de sua presença ali, todavia, não moveria uma palha enquanto eu não “oficializasse” minha solicitação. Imagino que isso fazia parte da burocracia espiritual a que todos nós estamos sujeitos: o livre-arbítrio, o “peça e receba”, ou o “batei e abrir-se vos há”.

“Vara Pau, agradeço sua presença. Eu o invoquei porque necessito de seu auxílio para realizar uma tarefa importante. Quero fazer um jantar para meus ancestrais e preciso convidá-los para o evento. Sei que vocês, índios, são mestres na arte de se comunicar por meio de Sinais de Fumaça. Por isso o chamei.”, disse eu homologando verbalmente meu pedido.

“Pois bem, Joana. Estou aqui para auxilia-la. Mas antes, devo empoderá-la gramaticalmente – já que você abriu o precedente -, quando manifestou seu desejo de querer se comunicar de outras formas. Não sei o que você aprendeu sobre verbos quando frequentou a escola, contudo, percebo ignorância no modo como você se expressa.”, disse Vara Pau com firmeza.

“Primeiro, é importante que você compreenda o que significa o ato da comunicação e o poder que esta ação possui. O como, será uma consequência deste SABER.”, finalizou.

Fiquei surpresa com a colocação do Índio. Não imaginei que teria aulas de sintaxe gramatical para poder me expressar por meio da fumaça. Percebendo minha estranheza com aquela conversa, Vara Pau quebrou o silêncio novamente.

“Comunicar é convidar a Vida para adentrar o seu Universo. É participá-la de suas intenções, de suas vontades. É um esvaziar-se de si mesmo para que ela possa preencher você. Sendo assim, somente uma comunicação empoderada possibilita uma permissão consciente desta participação.”

“???????”,  essa era a minha cara. Não estava entendendo nada.

“Um exemplo. Você não precisa fazer Sinais de Fumaça para convidar seus ancestrais, assim como não precisa falar, não precisa resolver nada, nem mesmo necessita fazer nenhum jantar.”, respondeu o Índio, tentando eliminar as rugas de interrogação da minha testa.

“Eu preciso disso tudo sim.”, falei.

“Não precisa.”

“Preciso.”

“Não, não precisa.”

“Sim, eu preciso!!!!”, disse eu alterada.

“Você QUER. E querer é completamente diferente de precisar. Compreende?”

Aquela resposta calou minha insistência. A ansiedade que brotava cada vez que eu afirmava que PRECISAVA DE desapareceu, assim como a sensação de dúvida, de incerteza que vibrava cada vez que eu utilizava este verbo de ação.

“QUERER é um verbo chave, que, de acordo com a Sintaxe Cósmica, é a O COMANDO CHAVE para dizer ao Universo que você se coloca disponível para a Ação. Sempre que você está de posse de si mesma, assentada em seu próprio Poder, você pode QUERER algo. PRECISAR é o polo oposto. Representa a inconsciência de si mesmo, de sua soberania. Se você PRECISA de algo, então você se esquece de sua verdadeira natureza, entrando na passividade, na falta, na escassez. Neste estado, você cria para si uma realidade de impotência e pobreza. PRECISAR é a enxada com a qual as vítimas capinam seu terreno estéril. Em sua essência, você JAMAIS precisa de nada, absolutamente. Você foi treinada para conjugar este verbo cotidianamente, como uma imposição de sua condição ilusória de vítima a mercê de um mundo insano. Além disso, PRECISAR é um verbo que complementa um insubstantivo ou substantivo ilusório: o MEDO.

“Insubstantivo? Que categoria de palavras é essa?”, indaguei.

“Insubstantivo é uma categoria da linguagem que expressa aquilo que não tem conteúdo,  que não tem substância e o MEDO é o exemplo mais comum e mais poderoso desta categoria gramatical. Ele não tem “sustância”, como dizem por aí. Mas de tanto as pessoas gastarem suas forças, suas energias falando, pensando e agindo a partir dele, ele assume forma… ilusória. Mas esta expressão jamais pode ser classificada como substantivo, seja concreto, próprio ou abstrato. O MEDO NÃO É!

E como ele exerce uma função sintática paralisante, este termo requer verbos passivos como PRECISAR, para se complementar. Verbos ativos como QUERER e SER jamais concordam com este insubstantivo. E exatamente por não possuírem concordância com termos sem substância, eles são as ferramentas mais poderosas de empoderamento e de materialização em nossas vidas, compreende?”

“Não. Eu não compreendo.”, respondi perplexa.

“Façamos um teste bem simples: Repita em voz alta o que vou dizer.”, solicitou Vara Pau.

“EU SOU MEDO. EU QUERO MEDO.”

A vibração daquelas palavras em forma de comando causou um profundo mal estar em meu corpo. Meus ouvidos foram acometidos de uma dor aguda e meu estômago começou a doer. Minha mente, parecia ter sido arrancada de um sono profundo, pois um ruído estrondoso e estranho a chamou para a realidade. Dizer aquilo não fazia sentido, não havia concordância naquela frase. Quem, em sã consciência solicita o MEDO? Ou é o MEDO?

Confesso que sentiria menos “gastura”, se o Índio me solicitasse para reproduzir pérolas do português como “Isto é para mim fazer.”, “Queira menas coisas.”, ou talvez “Você está meia errada.”. Depois dessa experiência abrupta de despertar linguístico, essas discordâncias viraram poesia para meus ouvidos.

“Compreendi, Vara Pau. Meu corpo não aceita tamanho analfabetismo cósmico, não mais. Não consigo pronunciar essas palavras porque elas não têm nexo. E percebo que realmente NÃO PRECISO de nada. Percebo também que eu escolhi vivenciar essa e muitas outras situações. Logo, EU QUERO resolvê-las, mas não PRECISO.”, respondi com a respiração ofegante, fruto do mal estar físico que aquelas asneiras semânticas me causaram.

“Pois bem Joana. Para se comunicar, seja por meio da Linguagem de Fumaça ou de qualquer outro mecanismo de sua escolha, você precisa conectar-se com o centro máximo de sabedoria do seu SER: o coração. É ele o ponto original no qual surge o que será dito e o que quer ser silenciado. Por isso trouxe meu tambor. Ele irá ajudá-la a reconectar-se com esta parte fundamental do seu ser. Além disso, sem o coração, os Sinais de Fumaça não funcionam.”, esclareceu Vara Pau.

“Ah, não?! Que interessante! Pensei que era só acender o fogo e, com uma manta, ir controlando a emissão de fumaça para o céu. Tipo um Código Morse.”, respondi achando tudo aquilo muito interessante.

“Olhe para a fogueira”, solicitou ele.

Olhei para o lado e vi que tinha fogo … mas não havia nem sinal da fumaça. Fiquei espantada com aquilo!

“Virgem Santa! Cadê a fumaça????”, perguntei assustada.

“Só há fumaça, onde tem fogo.”, respondeu Vara Pau.

“Mas a fogueira está acesa.”

“Mas seu coração está apagado.”, finalizou ele.

O Índio tomou minha mão esquerda e colocou-a em minha garganta, perto da jugular. Percebi que ele queria que eu tomasse consciência dos meus batimentos cardíacos. Ao tocar minha pele naquele ponto, notei um batuque fraco, era quase imperceptível.

Ele tomou o tambor nas mãos e começou a tocar. Aos poucos, a frequência de pulsações do meu coração entrou em sincronia com as batidas do instrumento e percebi que entrei em um estado de imensidão silenciosa muito profundo. De repente,vi em minha tela mental um pássaro muito lindo. Ele tinha penas muito coloridas e era grande, robusto, feito um pavão. Ele veio voando em minha direção e pousou em uma árvore de frente para mim. A ave me fitava com seus olhos vermelhos e instintivamente, enfiei a mão no bolso (nem sabia que tinha bolso na minha roupa) e tirei dali um papel em branco. Ela começou a cantar… um canto muito antigo, que eu conhecia mas não sabia de onde.

A medida que a canção ecoava, vários nomes começaram a surgir magicamente no papel, que, foi, aos poucos, perdendo sua brancura. Anastácia Betti, Licurgo Radicchi, Caterina Betti, Ernesto Monteiro, Rita Monteiro, Domenico Barbini … alguns nomes conhecidos, outros completamente estranhos. Percebi que eram meus ancestrais. O pássaro os chamava pelo nome, enquanto cantava, e estes iam sendo impressos. Apareceram também símbolos e formas geométricas, e, em alguns momentos o pássaro cantava nomes com sons e fonemas que seriam impronunciáveis por qualquer humano. Acho, que nessa hora ele chamava uma parentada distante, de outros planetas, galáxias, mas que também eram família e, por isso, faziam parte do trololó todo. Quando a lista estava completa, o canto cessou. Dei à ele o bilhete. Com o recado no bico, voou em direção aos céus e desapareceu.

Ao abri os olhos, notei que saía muita fumaça da fogueira e ela ia obedecendo as pulsações do meu coração e do tambor. Era lindo, que nem eu tinha imaginado que seria. As nuvens negras subindo aos céus em pequenas porções, dançando ao som das batidas.

Ficamos assim, Vara Pau e eu por um tempo. Em um dado momento, intui que todos os meus ancestrais tinham sido convidados, não faltava ninguém. Vara Pau, ouviu com sua alma minha sensação e silenciou o tambor. Calmamente, fui até a pia da cozinha, enchi um balde d’água e apaguei a fogueira. O Índio desapareceu no meio da névoa de fumo que subiu quando o fogo foi subitamente interrompido.

Agora, com os convites oficialmente despachados … a festa ia começar. Eu tinha um banquete para os mortos para preparar.

CONTINUA…

POETRY-Healing-Shaman

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Sobre BruxaMustang

Eu sou eu. Já uma amiga, me disse que sou uma acidez que refresca.
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