A verdadeira história do Fim do Mundo – Parte XVI

Com os convites enfumaçadamente “despachados”, voltei minha atenção para o próximo passo: organizar o jantar.

Abro uma janela, para explicar o que me passa pela cabeça com relação à esta categoria de evento social-familiar, deixando aqui registradas minhas experiências e sensações neste campo antropológico da existência.

*Primeira e única impressão: quanto mais etiqueta tem a coisa, mais eu fico entediada, achando tudo um baita SACO, e … vou embora!

Na casa dos Monteiro (pé genealógico da parte de minha mãe), não rolava esse negócio de etiqueta, de modos, de regras para o jantar, almoço ou lanche. Minha avó, aparelhava a mesa com um prato de cada cor. As xícaras jamais estavam expostas com seus respectivos pires, e, se faltasse garfo, não havia nenhum problema em comer de colher. Ela não tinha nenhum pudor em sapecar uma colherada de lasanha no seu prato, e nem de servir essa iguaria com farofa, banana assada e arroz com pequi. Vovó também não tinha nenhuma reserva para exigir de seus netos que moderassem na comilança de modo que, os bolinhos de carne de soja fossem igualmente distribuídos entre a tropa familiar. Ela era um ser econômico, e não ia esbanjar ingredientes só porque você estava faminto e tinha vontade de comer dois exemplares ao invés daquele filho único que ela estava disponibilizando.

Ah, só mais uma coisa! Com ela, aprendi uma sabedoria zen budista importante, que só os grandes iniciados conhecem e praticam: quando você tem fome, você come. Ou seja, com uma família com 8 filhos, 23 netos e 6 bisnetos, ela não se dava ao trabalho de ter que esperar todos chegarem e sentarem-se à mesa ao mesmo tempo, para começar os trabalhos gastronômicos. Se o almoço estava pronto e eu tinha fome, nunca precisei esperar aqueles tios que sempre demoravam umas 20 horas para chegar. Era só me servir e comer, até porque a mesa não comportava aquele mundaréu de gente, e Vovó não tinha problemas em servir o almoço em turnos.

Já na casa dos Radicchi (outro pé genealógico, recebido do meu pai), a coisa era um pouco diferente. O modelo lá era meio … digamos … militar. O Coronel UltraReformado Vesúvio (nome vulcânico que foi carinhosamente dado por meus tios ao meu avô Clóvis), tinha regras muito precisas sobre como deveria ser o almoço dominical em seu quartel general. Listo aqui, aquelas que ainda estão frescas em minha memória:

  • Todos tinham que ir. (E para quem não fosse, meu avô tinha sua Tenente Coronel – a minha avó – para fazer aquela técnica de tortura pior que a da CIA ou da KGB: a super chantagem emocional. Ela ficava lamentando sobre o quanto era importante a sua presença, e que por causa disso ela tinha preparado o seu pudim de leite condensado favorito, blá blá blá. Porque, meu avô, claro, ele, não estava nem aí para sua presença. Mas ai de você, se faltasse, ou se passasse por ele na cozinha e não batesse continência para o seu superior.)
  • O almoço era servido por volta das 12:30 horas. (E se você tinha amor ao seu belo pescocinho, era melhor tratar de ser pontual. Vovô ficava puto com quem chegava durante os trabalhos gastronômicos, ou depois, quando a mesa do almoço já tinha sido desfeita e estávamos todos a degustar a sobremesa. Você pagaria com sua vida tamanho desacato.)
  • Quando o cafezinho era servido, por volta das 14:30 hs, aquele era o “código secreto” para que todos se mancassem e compreendessem que era hora de… VAZAR! Vovô tomava o café e daí alguns minutos já estava indo para o quarto para tirar sua costumeira soneca da tarde. Esse era o toque de recolher para todos os soldados. E que os retardatários, aqueles que não apareceram antes  das 12:30 hs não ousassem tocar a campainha naquele horário, ou eles seriam fulminados pelo Coronel Vesuvio. Isto significava que a missão dominical no quartel general Radicchi tinha sido cumprida com sucesso pela infantaria.

Tinham outras tantas, que agora não me vêm à mente. Claro que, para eu gostar de ir lá, quando era criança, haviam regras que eram alegres. Por exemplo: meu avô era um ser que gostava de fartura, de abundância, que sabia apreciar os prazeres da mesa. Então, posso dizer que esses eventos eram verdadeiros banquetes, com pratos especiais dedicados a vários dos convidados (doce de marmelada para minha prima Carla, língua de boi para minha madrinha e eu, caixa de bombom para meu avô fazer as festa com os netos, e por aí vai). Minha avó sempre caprichava no momento “pré-almoço”. Tinha pastel, empadinha, pizza, empadão, bolinho de bacalhau … coisinhas lindas para a gente beliscar e se divertir enquanto ela providenciava o rango mesmo.

Além disso, a casa dela tinha um jardim imenso no qual seus netos poderiam se perder em inúmeras brincadeiras, além do INSS – um dos quartos, que ganhou esse apelido dos meus tios que gostavam de “encostar” lá para uma soneca pós almoço -, lugar predileto para brincar de “quarto do terror”.

Então, este foi o panorama de etiquetas que aprendi – além das regras em minha casa, com meus pais – sobre eventos familiares. Se por um lado aprendi a ser largada com aparelhamento da mesa, ou com a pontualidade dos envolvidos, deixando de ter controle da coisa e deixar o pau quebrar – como fazia minha avó Maria -, por outro, aprendi com meu avô Clóvis e minha avó Nicra a gostar de fartura, de servir coisas gostosas (não que minha vó materna não fizesse isso, mas minha outra vó era campeã mundial das gordices para netos), e de que… eu queria que o evento tivesse hora para acabar. Claro, uai! Receber visitas – que escolho a dedo, pois como meu avô paterno, sou meio bicho do mato e não “gosto” tanto assim de todo mundo – é jóia, mas eu valorizo muitíssimo meu tempo sozinha. Portanto, adoro quando a festa termina e todos vão embora. Ou seja: nada de ficar na minha casa até a próxima reencarnação … venha, mas traga junto o seu “SE MANCOL”.

Então percebi que esse era meu ponto de partida para o jantar: não me preocupar com quem viria, nem com etiquetas à mesa ou fora dela. Ocupar-me com a escolha de um menu que eu achasse gostoso de cozinhar e de comer e, definitivamente,  estabelecer uma hora para todos irem embora. Ou ficaríamos discutindo as pendências familiares pela eternidade a fora.

Resolvi dar uma explorada na cozinha, para fazer um inventário dos utensílios que estavam disponíveis para meu intento. Já sabia da existência do caldeirão e da colher de pau gigante, mas precisava ver se encontraria copos, pratos e talheres suficientes e se havia uma toalha de mesa descente para o jantar. Quando pensei nesse último item, me lembrei de que não havia reparado se a Casa possuía um móvel adequado para refeições em larga escala. Após me certificar de estar provida das miudezas que havia enumerado, fui vasculhar se havia algum cômodo que comportasse uma mesa de jantar para minha tropa de convidados ancestrais.

Fui caminhando pelo corredor, aquele com várias portas, no qual eu já tinha passeado um pouco – quando encontrei  o quarto dos Incertos ou quando fui tentar cochilar nas camas em forma de armadilhas. Pela primeira vez, me dei conta de que, aquela Casa tinha umas proporções um tanto quanto surreais. Se você a observasse de fora, parecia um imóvel padrão, com uns 3 ou 4 quartos, sala de visitas, copa, cozinha, banheiros, terreiro, nada de mais. Mas quando você entrava, ela era muito, mais muito maior. Parecia que a cada vez que eu resolvia procurar por algo, brotava “milagrosamente” um cômodo novo. Ou então, eu me surpreendia com o fato de que, objetos, móveis surgiam e desapareciam como que por encanto. Uma coisa deveras esquisita.

Naquele lugar, ser cego era um problema muito sério.  Parecia a que eu morava na casa do do Raul Seixas, mais conhecida como a morada “A METAMORFOSE AMBULANTE”: tudo mudava toda hora, e eu frequentemente acordava com aquela sensação de que “Nada Será Como Antes”- como diria o Milton Nascimento – um dos meus cantores prediletos. Sendo assim, eu estaria muito, mas muito perdida, caso não enxergasse bem. O melhor era que eu procurasse estar atenta sempre que possível, com os olhos bem abertos. Do contrário, acabaria dormindo em cima da privada, ou tomando banho no guarda-roupas, por achar que tudo SEMPRE estaria no mesmo lugar.

Em minha busca por um cômodo que pudesse comportar o meu evento ancestral, abri muitas portas. Tinha lugar vazio, lugar empilhado de coisas até o teto. Portas abertas, e portas que não abriam nem se o Rambo viesse com sua bazuca pra tentar arrombar. O projeto arquitetônico e decorativo daquela Casa, parecia vir de uma mente tão, mas tão criativa e com tanta ânsia de materializar suas ideias que resolveu construir uma Torre de Babel, com pedaços dos Jardins do Éden, contornos de Sodoma e Gomorra, fluidez da Avenida 25 de Março, com toques franceses do Palácio de Versalles, mais aquela ideia de construir tudo com técnicas do “Puxadinho”, escola arquitetônica oriunda dos artistas da Rocinha. Eu tinha herdado a 9a. maravilha do mundo e não fui avisada.

Não entrarei em detalhes sobre tudo o que vi, mas confiem em mim: foi coisa pra chuchu! Só sei, que lá pelas tantas, achei uma sala de reunião toda moderna, com uma mesona, cheia de poltronas de rodinha super confortáveis, um telão e um retroprojetor. Tipo aquelas salas de grandes CEOs de empresas, que a gente vê em filme. Não era assim, aconchegante que nem a casa das minhas avós, mas nada que uma toalha xadrez, uns pratos coloridos e uma comida honesta não amenizasse.

Dei uma limpada no local, pois ele estava empoeirado, e fui direto pra cozinha, atrás do livro mágico das minhas ancestrais pra resolver a questão do rango. Se lá eu achei a tal sopa que me fez virar esqueleto, com certeza, ia ter algo que servisse para o meu evento familiar. Encontrei uma receita com o nome de Reviravolta de Legumes – tipo um mexidão muito louco, pelo que pude entender – que, com esse nome sugestivo, achei que tinha tudo a ver com a ocasião. O que eu estava me propondo a fazer era realmente uma reviravolta: eu ia remexer no passado, ver gente que eu nunca tinha visto na vida, desenterrar velhas histórias, saLdar e saUdar antigas dívidas, quebrar velhas promessas, deletar antigas crenças… mais um tanto de outras coisas que eu tinha visto no “Manual de Instruções”, que vinha junto com o kit BB que ganhei do Banco Karma Beth.

Botei um avental, liguei o som no talo, pra dar aquela inspirada, e parti pro ataque. Descasquei, piquei, ralei, espremi, misturei, fritei, fervi, martelei, furei, assei, lavei, deixei de molho, tirei do molho, fiz molho … e, PIMBA! Ficou pronto! Uma belezura! O cheiro da minha Reviravolta de Legumes revirou a Casa inteira. Arrumei a sala na qual receberia meus convidados para o jantar e fui tomar um banho, pois estava quase na hora deles chegarem.

Pontualmente às 00:00 hs, eles começaram à chegar. E eu achando que meia-noite a gente vira abóbora… hahahaha, que nada, é quando a mágica começa. Ia parando na porta da minha casa, carroça, carruagem, carro conversível, bote salva vidas, navio, calhambeque, cavalo, mula, carro-de-boi, avião, foguete, jipe, nave espacial e até portal dimensional. Vi parente fardado, vestido de padre, feira, mendigo, pessoas com aquelas roupas frufruzadas de corte européia, gente pelada, com cocar na cabeça, pinturas corporais, peles de bicho, gente vestido com roupa de marca, roupa sem marca, com umas roupas espaciais estranhas, gente sem roupa nenhuma, gente branca, preta, amarela, verde, azul  (não estou exagerando). Tinha homem, mulher, homemmulher, mulherhomem, criança, velho, bicho, coisa, e mais uns outros tipos que eu não sei explicar. Tudo família.

Eles me cumprimentavam, cada um de um jeito e me chamando por um nome. Surreal!

Não parava de chegar parente, achei até que devia ter alugado um estádio de futebol, mas resolvi confiar que a Casa era um Grande Mistério que, como um coração cósmico, ia acomodar à todos, nem que eu tivesse que dependurar meus tataraprimos, em um lustre, meus tios no cabideiro, minhas tataraavós ETs sentadinhas na mesinha de centro da sala de estar. Pra tudo tem jeito nessa vida.

Aos poucos a movimentação na rua foi diminuindo e todos foram entrando, me entregando seus convites de fumaça, o que garantia sua entrada em meu evento VIP. Fiquei meio preocupada com a barulhada que estava rolando em minha Casa, e qualquer chilique da vizinhança, mas era engraçado: do lado de fora, estava tudo silencioso, dava pra ouvir até os grilos. O Axé Ancestral era só la dentro mesmo. Puta acústica doida, a desse imóvel.

Uma vez que botei pra dentro da Casa toda aquela ancestralidade, vinda de todas as linhas temporais, dimensões e de onde quer mais nesse Universo de Meu pai Oxalá, fechei as portas.

O jantar ia começar… e eu juro, que eu ia resolver aquele trololó de dívidas cármicas de um jeito ou de outro, ou meu nome não era Joana. E … será que era mesmo?

CONTINUA…

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Sobre BruxaMustang

Eu sou eu. Já uma amiga, me disse que sou uma acidez que refresca.
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