Como DES-construí a minha carreira

A maioria das pessoas que conheço, assim que são habilitadas a serem jovens “adultos”, começam essa grande empreitada que é “construir uma carreira”. Qualquer construção começa com uma base, nunca vi qualquer edifício que começasse a ser levantado pelo teto. Sei que já vai ter gente falando do “Querido Junior”, ou da “Amada Patrícia”, aqueles que nasceram em berço de ouro e que parecem conseguir subverter esta ordem de processos na engenharia civil: eles começam pelo topo e por lá ficam, enquanto o papai ou a mamãe tiver dinheiro pra bancar as bases do seu edifício herdado com teto de vidro blindex. Contudo, vamos pra uma outra fatia, também não muito gorda da população mundial, mas que está aí nesse lance de fazer uma carreira.

Então, a construção começa pela base. A pessoa vai pra escola. Quando chega por volta dos seus 17 anos escolhe lá uma profissão pra aprender e assim, a grosso modo, estabelece-se a fundação de uma carreira. Ela pode ir fazer um curso técnico, pode ir fazer universidade (e aí, dependendo do tamanho do edifício a ser construído, pode ser preciso incluir especializações, mestrado, doutorado, pós-doc, MBA  e congêneres), pode fazer um curso que lhe ensine um ofício que ela vai aprimorando ao longo do tempo.

Feita a base, o ou a jovem “adulto(a)”, vai passar um bom tempo estudando, fazendo estágio, correndo pra lá e pra cá, brilhando anonimamente ao entregar um trabalho que terá o nome do seu chefe e não o dele próprio, vai ganhar sorrisinhos e tapinhas nas costas do gerente quando fizer um bom trabalho, tipo as estrelinhas que a gente ganhava no caderno quando apresentava uma tarefa bem feita na escola, e vai continuar ganhando miséria. E assim o jovem “adulto” vai levantando vigas, paredes, dando prosseguimento à construção da sua carreira.

A pessoa pode escolher acabamentos diversos para sua obra e que são opcionais, dependendo do tipo de carreira/edifício escolhido e quantos andares ele vai ter: aprender umas sei lá quantas línguas, saber pintar, ter conhecimentos avançados em informática, aprender a falar em público, ser uma wikipedia ambulante e ser mestre em informações desnecessárias. Existe uma infinidade de pequenos embelezamentos que vão deixar a construção mais “bonita”no futuro. Só depende do bolso e da paciência de quem está construindo.  Daí ela, ou faz um concurso público e vai cravar a bunda em uma cadeira pelos próximos 30, 40 anos (no Brasil, agora… com essa PEC55 só mesmo acreditando em reencarnação para aposentar, pois são quase 50 anos de contribuição para o fundo de pensões brasileiro), ou vai lá travar um MMA com concorrentes no mundo corporativo até conseguir o cinturão de CEO. E que o aprenda a manter com unhas e dentes se quiser permanecer no topo. O Steve Jobs por exemplo, chegou no teto do edifício e depois virou recepcionista… deu um trabalhinho retomar a chefia de sua Apple.

Existem infinitas variáveis que aqui estou desconsiderando, pois peguei mesmo o mais clichê. E como qualquer construção, depois de uns anos há que se fazer reforma: paredes descascam, canos estouram, mais membros surgem e é preciso aumentar a casa. Então o agora “grande adulto”, vai fazer cursos de reciclagem, pode querer voltar para a universidade para fazer uma segunda graduação, ou vai lá acabar aquele mestrado que ficou trancado por uns 20 anos. São as reformas no edifício, as melhorias ou acertos que precisam ser feitos. Paredes despencam… e é preciso consertar, não?

Isto é o processo de construção da carreira. Se é sólida, depende do pedreiro, dos materiais utilizados, do arquiteto, do engenheiro, do santo para o qual você rezou, da carreira que escolheu. Umas balançam mas não caem, outras balançam e caem. Tem aquelas que são implodidas, umas se tornam edifícios inacabados e abandonados. São os projetos de vidas dos “adultos”e muitas vezes importa que sejam bem sucedidos. Mas agora que contei como eu percebo o processo de construção, vou contar o meu… o de desconstrução.

Eu comecei pensando em “construir”, então procedi da base: fui na escola, estudei, aprendi um ofício. No meu caso, eu comecei a aprender o tal trabalho com 4 anos de idade, mas isso tinha outro nome na época: D I V E R S Ã O. Eu comecei a estudar música ainda criança, depois tinha que transformar essa casinha de brinquedo em uma carreira. Então, fui fazer graduação em música, fiz mestrado em música. Estou aí com um doutorado meio emperrado, que vai e não vai… o eletricista fica me dando o bolo e a coisa ainda não desatou. 😉

Eu já fiquei sem tocar profissionalmente por 3 anos, e, desde 2011, eu quero saber cada vez menos de transformar a minha tal “carreira” em um gráfico de função exponencial com curva sempre crescente. Desde então, tenho feito cada vez menos concertos, recitais. Acabei por arrumar um trabalho de tocar em casamentos que durante muito tempo pagou as minhas contas e no qual, eu me divertia um bocado sem ter que ser a menina dos holofotes. Nos últimos concertos que fiz, em 2015, eu saí despistado porque não tinha saco pra cumprimentar as pessoas. Fiz meu trabalho, todos nos divertimos, então tudo o que eu queria era ir pra casa, deitar na minha cama e curtir a minha vida de boa, quieta. Não, não é falsa modéstia, porque os recitais foram de altíssimo nível, era só preguiça mesmo. Minha recompensa era ir pra casa tranquila, só isso.

Fui perdendo a vontade de fazer contatos, de me meter no meio das pessoas e dos projetos e das coisas. De matar um leão por dia e postar a foto no facebook do meu feito. De ir aumentando as linhas e as páginas do meu currículo. De pensar na próxima meta, no próximo desafio.

“E o doutorado?”, você deve estar se perguntando.

Eu também me pergunto isso. O doutorado foi mesmo porque: primeiro eu poderia sair do país com tudo pago (e claro que eu ia fazer tudo direitinho, pois bem ou mal seria mais um andar na minha construção, sem fazer tanto esforço), e segundo porque me custa ainda hoje admitir que essa corrida de construção de carreira simplesmente me deixa extremamente infeliz. Me custa aceitar totalmente porque trata-se de um valor,  de uma crença muito arraigados em mim, assim como no mundo que me cerca. Contudo, mesmo com essa “diretriz de construção civil”ainda marretando em minha cabeça, todo o resto de mim manda um baita “FODA-SE” para isso tudo.

Então, eu fui desconstruindo, talvez, a noção de “Carreira e Progresso”. Vou ser assim muito muito honesta, pois é meu blog, meu texto, então aqui eu me reservo o direito. A sensação de fazer uma coisa, de completar uma tarefa, de superar um desafio (esta é uma das que me dá mais preguiça atualmente, a recompensa de hormônios parece não mais ser o suficiente para me dar prazer) tem ido embora cada vez mais rápido. Se antes eu conseguia ficar uma semana em estado de graça por atingir um feito, com aquela sensação de fogos de artifício e euforia … olha, hoje dura 5 minutos e sem show pirotécnico emocional. Eu sinto sei lá, uma tranquilidade, uma coisa assim meio normal até, não muda muito quem eu sou, ou o meu dia. É até meio estranho. E se as recompensas emocionais, bio-químicas ou sei lá quais não tem sido assim estrondosas, sinceramente, eu que não vou fazer feito um drogadito e tentar doses maiores ou drogas mais pesadas, tipo: fazer umas duas graduações ao mesmo tempo, aprender japonês e grego, praticar esgrima, virar a madrugada estudando para concertos e escrevendo projetos … não sei, acho que daqui uns 6 meses, não vai ser o suficiente pra sentir a “onda”.

Sem contar que eu gosto mais quando sou ridícula e consigo rir absurdamente disso, quando as pessoas acham que sou tola. É aí que eu entro nessa mesmo, pois “ser inteligente”, para mim, é feito carregar um saco de cimento de 20 quilos no lombo até o quinquagésimo andar de um prédio sem elevador. Ser tola, é largar o saco de cimento na porta do prédio, dar meia volta, atravessar a rua e sentar no banco da praça, acender um cigarro e ver o movimento das pessoas. Nesse meio tempo, chega uma grua do nada (milagre!) e você vê o saco de cimento chegar sozinho como que por mágica até o destino nas alturas. E ninguém aplaudiu. Teve gente que tropeçou no saco de cimento e xingou o saco, você, sua mãe e o mundo. Mas eu estou do outro lado da rua, anônima, fumando meu cigarro, mal escuto as imprecações. Então o que me importa? Que me importa se quem vai ganhar o aperto de mão do chefe é o cara que pilota a grua e não eu? Foda-se! Eu é que não vou voltar pra casa com dor nas costas só pra superar o recorde do Guiness Book de “pessoas determinadamente burras” que vencem seus limites para carregar um saco de cimento (serem inteligentes) arranha-céu acima.

Então, com isso eu posso dizer também, com muita calma e certeza que para mim, a palavra “trabalho” é a palavra mais obscena que existe e eu lá quero escalar degraus e construir coisas galgando essa imunda? Não! E claro que… eu serei considerada um ser absolutamente inútil, sem valor comercial, uma unidade monetária que perdeu a validade (e que por isso não serve para negócios), tipo o rublo, o escudo, a lira, o cruzeiro real. Porque aqui nesse mundão é assim: rale o cú na ostra, se esfole, vença seus limites, sofra, se mate, faça uma novela mexicana de suas dores e feitos, se você quiser ter valor. Esforço e valor são sinônimos!!!! Isto sim é coisa do capeta pra mim!

E o esforço pode ser medido pelo tamanho do seu edifício/carreira, dos seu inúmeros feitos, e empregos/trabalhos/projetos, prêmios, concursos, artigos, publicações, lucro … olha é uma lista grande, você já entendeu a lógica aqui. Quanto maior o seu currículo, maior é sua construção. Tem gente que morre e não consegue acabar a danada.

Eu termino dizendo que assumo o meu profundo gosto e prazer por “fazer nada”, por não “ter que” nada, por me lixar para “superar limites”. Talvez, para descobrir como faço para viver como quero, eu precise superar um último limite… o medo de me abrir para a possibilidade (completamente desconhecida para mim no presente momento) de viver exatamente como eu quero: tranquila, com um maço de cigarro na bolsa, um dinheiro … bem tola, sentada no banco da praça.

 

Anúncios

Sobre BruxaMustang

Eu sou eu. Já uma amiga, me disse que sou uma acidez que refresca.
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s