A verdadeira história do Fim do Mundo – Parte XII

Encontrei Seu Beleza Pura expondo umas frutas na banca que ficava no passeio. Ele estava concentradíssimo, organizando maçãs fuji em tons de degradê. Só artistas profissionais como ele sabem por a vida numa Ordem Frutífera das coisas.

“Boa tarde, Seu Beleza Pura! Tudo bem?”, disse eu sorrindo.

Ele me deu um abraço generoso e um beijinho querido na bochecha.

“Ô Moça Bonita, você por aqui! Que coisa boa! Que ventos a trazem até o meu estabelecimento?”, respondeu ele com um riso aberto, que nem fatia de melancia.

“Então Seu Beleza Pura, como sempre, eu e as minhas listas para resolver. Tô com um monte de coisas para fazer e uma delas é pagar este bolo de contas aqui.”, respondi mostrando a montanha de dolorosas pendentes.

O dono do mercado ajeitou os óculos na ponta do nariz e verificou o volume de débitos em minhas mãos. Depois de olhar uma por uma, soltou:

“Vixi filha, você terá que ir lá no Karma Beth, o banco da vizinhança. Não é muito longe daqui. Dá uns 30 minutos de caminhada. Mas se for de bicicleta vai mais rápido. Posso te emprestar a Gostosinha, minha magrela companheira de aventuras.”

A bicicleta era vermelha e tinha farol e buzina. O banco era de couro branco assim como as bordas do pneu. Gostosinha era uma senhora da década de 40, porém muito bela e conservada para a sua idade.

“Poxa, vai ser ótimo! Muitos anos se passaram desde a última vez em que andei de bike por aí.”

“Vou ajeitar essa papelada numa pasta, daí você coloca a tralha toda na cestinha.”, disse Seu Beleza Pura.

Ai, como é bom encontrar pessoas com personalidade de cachoeira em nossa vida! Elas são refrescantes, generosas, naturais…fluidas. O Seu Beleza Pura era exatamente assim. Uma pessoa tranquila, exercendo sua função no mundo sem qualquer pretensão de nada. Ele parecia ser imune à poluição emocional que paira no ar. Eu o considerava como um Padrinho Galáctico, que me batizara no meio de uma nebulosa estelar.

Fiquei atenta enquanto ele me explicava o caminho, para não perder nenhum detalhe. Montei na Gostosinha e fui gostosamente pedalando até o banco Karma Beth. Enquanto pedalava, fui recordando o stress  mensal vivenciado pelos meus pais. Todo começo de mês, uma atmosfera de alegria e preocupação pairava em minha casa. Eles ficavam felizes pois o salário do meu pai tinha saído mas ficavam putos porque o dinheiro fugia da mão deles rapidinho. Eram reclamações e imprecações contra o pagamento de contas, de boletos bancários. Eu, uma criança de uns 10 anos, olhava pra eles e pensava que pagar devia ser algo muito desagradável para os adultos, do contrário, eles ficariam mais alegres quando visitavam o banco. E, ao contrário deles, ficava sempre feliz quando podia ir até a quitanda da Dona Nenem esvaziar meu cofrinho, pagando por todas as gostosuras que queria comer.

Resolvi abdicar daquela memória e abrir-me para construir um novo conceito à respeito daquela tarefa tão inerente ao fato de ser um humano na Terra: ir ao banco pagar contas. Aquilo foi legítimo para meus pais. Era real a angustia deles: quatro filhos, meu pai gastando muito mais do que podia, sem nenhum planejamento e minha mãe sendo sempre a dona da última palavra – “Sim, Senhor!”. Mas eu poderia fazer diferente. De um outro jeito, e eu iria até o Banco Karma pra descobrir qual era.

Deparei-me com um prédio todo em mármore branco. Tudo muito claro. Parecia mesmo um lugar no qual se passa a vida à limpo. Não havia uma mancha, um borrão…nadinha.

Estacionei Gostosinha num canto, tirei da cestinha o Porco Rosa e a pasta com as contas e fui em direção à porta giratória que dava acesso ao interior do local. O banco estava movimentado pois havia um grande vai-e-vem de pessoas. A porta não parava de rodar. Eu não sabia muito bem o que fazer, como entrar naquela roleta russa. Agarrei o Porco com força, como se ele fosse um colete salva-vidas, fechei o olho e parti pro “Salve-se quem puder!”.

Apenas peguei carona na onda e a porta travou. Um alarme começou a apitar. Eu estava empacada. Não conseguia ir nem pra frente nem pra trás. Fiquei assustada.  A seguinte mensagem começou a soar nos alto-falantes do banco insistentemente, que nem um alerta vermelho diante de um ataque terrorista:

“Roda do Karma! Roda do Karma! Desapegue-se de seus pertences metálicos para não estagnar a passagem, evitando assim inconvenientes para você e para os demais. Tempo é dinheiro!”

Lembrei-me que estava agarrada ao Porco Rosa cheio de moedas.

“Que mancada!”, pensei morta de vergonha pois todo mundo do banco ficou olhando pra mim. Afinal, eu estava impedindo a passagem do capitalismo por um apego medroso ao meu cofrinho.

Um segurança aproximou-se e destravou a porta.

“Senhorita, por gentileza desapegue-se de itens metálicos e deposite-os na caixa à sua direita.”

Com o rabinho entre as pernas depositei as moedas na tal caixa e passei pela porta outra vez. Deu certo, estava dentro do Karma Beth. O guarda me devolveu o porco e segui rumo à um balcão de informações para saber como proceder para pagar meus débitos.

Fiquei meio perdida pois haviam muitas filas ziguezagueando pelo amplo saguão do banco. Elas eram gigantescas. Pelo visto, era muita gente devendo coisa nessa vida. Senti um pouco de alívio por constatar que não era só eu que estava embananada.

Ao chegar no guichê de informações, uma moça muito bonita e educada me recebeu com um sorriso.

“Bom dia Senhora! Bem vinda ao Banco Karma Beth, o lugar perfeito para desatar os nós de sua vida. Em que posso ajudá-la?”

Ela usava um crachá. Seu nome era Maria da Piedade.

“Olá Piedade. Acabei de me mudar para uma casa aqui nas redondezas. Herdei-a de minha família. Acontece que o último morador deixou esta pilha de contas para pagar. Gostaria de saber como proceder para livrar-me delas.”, respondi.

“Senhora, posso ver os papéis?”, inquiriu Piedade com gentileza treinada.

Entreguei a pasta para a atendente. Ela correu o olho naquela papelada e foi separando-as em pequenos montes. Depois de depositar o último papel numa das pilhas, Piedade disse:

“Senhora, para efetuar o pagamento das contas você deverá primeiro procurar o gerente para que ele possa calcular os juros. Algumas devem ser tributadas e outras não. Após fazer isto, você deve dirigir-se às filas para realizar as operações. Eu tomei a liberdade de escrever no topo da primeira folha de cada pilha o nome do setor que a senhora deverá procurar para pagar as contas. Mais algumas coisa?”

“Não, é só isso mesmo.”

“Então tenha um bom dia. Se precisar de algo estarei à sua disposição.”finalizou Piedade com sorriso calmante de markenting.

Fui até o gerente. Nossa senhora! Tinha a torcida inteira do Corinthians na minha frente. Vi que era preciso pegar uma senha. Pelos meus cálculos, o meu papelzinho deveria sair com o número 4.387. Respirei fundo e fui obedecendo os comandos da máquina, que eram em viva voz.

“Seja Bem Vindo ao Banco Karma Beth. Para retirar sua senha digite seu nome completo.”, disse o computador.

Fiz o que ele pediu.

A máquina cuspiu meu papelzinho e para meu espanto recebi a senha numero ZERO! Dei umas porradas no computador, apertei os botões outra vez e saiu a mesma meleca de papel… senha ZERO!

“Essa dona do computador tá de brincadeira comigo. Com esse povaréu todo, como assim, zero? Eu existo caramba! Como eles vão me chamar?”

Vi um guardinha parado perto de onde eu estava e resolvi averiguar com ele o que estava acontecendo com a máquina.

“Moço, com licença. Acho que a máquina de senhas está com problemas. Eu obedeci todas as instruções e olha o que aconteceu.”, disse eu mostrando o número zero.

“É isso mesmo. Você é o número zero.”

“Moço, qualquer sequência de senhas começa pelo número um, ou seja, a primeira pessoa a ser chamada, depois vem o dois, o três, até chegar o fim do expediente, quando a coitada da atendente já está puta berrando “NÚMERO 5.671 POR FAVOOOORRR!”, respondi.

“Aqui a ordem de chamada é outras. O sistema do banco Karma não é linear. A escolha de sua senha depende de outros fatores. O número zero é um número de sorte… você saiu com a senha que significa “TODAS AS POSSIBILIDADES”.”, falou o guarda.

Peguei minha senha de número TODAS AS POSSIBILIDADES e, resignada, sentei-me junto aos outros clientes, que assim como eu, aguardavam sua vez.

Tinha uma televisão ligada, para distrair as pessoas enquanto elas esperavam. Aprendi com Dona Gracinha, que distração não é a melhor maneira de se passar por qualquer experiência, mesmo as mais chatas, como por exemplo, esperar na fila do banco. Pode acontecer tanta coisa, dentro e fora da gente, que se estamos distraídos, ao invés de experiênciar de olhos abertos a coisa, o negócio vira um assalto ou então uma escorregada na casca de banana.

Além disso, a televisão é um negócio meio complicado. É uma caixa neutra, que mostra o que a gente quiser nela. Até aí tudo lindo. O problema é que pra gente transformar o que ela mostra em realidade verdadeira na nossa vida, é um estalo de dedos. Por exemplo: a moça do jornal fala que tem 5 casos de dengue num bairro. A tia vê isso e já liga pra gente, aterrorizada, dizendo que é pra fechar todas as janelas, passar repelente, andar armado com aquela raquete elétrica de matar insetos super brega e fazer muitas orações para Santo Expedito pois estamos no meio de uma guerra biológica que causou uma epidemia galáctica de dengue sem precedentes. Detalhe: o tal bairro fica a 20 km de distância de onde a gente mora e a cidade tem 5.000.000 de habitantes. Pra causar uma epidemia, o mosquito precisa arrebanhar mais seguidores e beijar mais gente.

Claro que eu não sou besta. Vou tomar as devidas precauções. Amarro o camelo primeiro e depois peço uma forcinha para Alá, pra dar uma olhadela no bicho. Mas daí, a entrar em pânico, é uma outra história… digna de quem anda distraído pelo mundo.

Enfim, deixei de lado a televisão, e resolvi dar uma olhada nos papéis que Piedade havia separado. Enfiei a mão na pasta e encontrei, no meio da papelada, um livro. Devia ser do Seu Beleza Pura, afinal ele tinha enfiado tudo lá dentro.

Na capa, havia o seguinte título: “Tudo o que você precisa saber para parar de procurar a metade da laranja: APRENDA A DESCASCAR A SUA PRÓPRIA!”

Como falava de frutas, imaginei que era algum manual sobre administração de quitandas. Afinal Seu Beleza Pura tinha uma e por sinal, das muito boas. Lembrei-me das coisas que ele me ensinou quando fui lá pela primeira vez. Fiquei curiosa em relação ao livro. Abri na introdução, que começava assim:

“Muito se tem dito e feito à respeito de nossa eterna busca pela metade da laranja. Vários deram suas vidas nesta empreitada sem jamais alcança-la. Porém ninguém nunca disse a verdade sobre o assunto: nós somos a laranja inteira, o verdadeiro desafio é aprender a usar uma boa faca Tramontina de serrinha para descascá-la, seja de gomo, ou de tampinha, de maneira que ela não fique ferida e o caldo escorra pelas tabelas enquanto nos deliciamos com seu sumo.”

“Quê????”, pensei com meus botões. “Que conversa doida é essa?”

Por trás de uma sandice, sempre existe o tesouro da sanidade. E como eu não queria ficar hipnotizada pela televisão, resolvi aguardar por TODAS AS POSSIBILIDADES em companhia do livro maluco do Seu Beleza Pura.

CONTINUA…

CONTINUA…Gringotes

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A verdadeira história do Fim do Mundo – Parte XI

“Ô Dona Shena Aposentada, e aí, vai ficar paralizada feito lei no Congresso, ou vai dizer alguma coisa?”, perguntou a Poeira Fugitiva capturada pela Dona Gracinha.

A velhinha permanecia imóvel diante do tal quadro na parede. Havia algo de muito grave na situação, pois Dona Fudência era a Rainha da Cocada Preta, a Cabra da Peste, Aquela que Manda Prender e Matar. Eu nunca tinha visto ela daquele jeito.

“Dona Gracinha, fala comigo! Faz alguma coisa, Pelo Amor de Deus!”, supliquei ao vê-la que nem uma plasta.

Era desconfortável para mim, ver minha Mestra numa situação tão desconcertante. Assim como a maioria das pessoas, sempre acreditei que os gurus, os iluminados eram seres acima de qualquer suspeita. Às vezes, jurava que Deus, ao criá-los, polia essas esculturas beatificadas com lustra-móveis cósmico. Mestres são aqueles que têm respostas, que têm poder, que são bons em tudo o que fazem. A Dona Gracinha, naquele momento, mais parecia um cãozinho assustado, uma criança paralizada diante do fantasma da Loira do Bonfim! Foi batendo um desespero em meu peito. A gente tava lascada meeeesmo!

“Senhor, a Fudência não sabe o que fazer. Fica lá com aquela cara de paçoca amassada olhando pra Treta dela. Se ela que é a Dona da Verdade tá empacada nessa situação,que dirá eu que sou uma Bocoió de Argola?! E agora? De onde virão as respostas?”, pensei com a cabeça vomitando aflição.

“É isso mesmo, ô Preguiçosa. A Shena da Jovem Guarda aí tá com medinho porque ela sabe que rapadura é doce mas não é mole. Só que sabe como é né … varreu a Tretinha dela pra debaixo do tapete. Agora filha, a jurupoca vai piar.”, disparou a Poeira Fugitiva.

Eu chacoalhava a velha desesperadamente e ela nada. Até que me lembrei da Compaixão e lasquei um tabefe de amor na cara da Dona Gracinha. Ela tomou um susto, como quem acorda de um sonho ruim.

“Joana, minha filha, tive um pesadelo horrível. Sonhei que estávamos brincando de detetive. Saímos à caça de Poeiras Fugitivas. De repente, encontrei Pede Pra Sair que me mostrou minha Treta! Foi horrível!”, disse ela ofegante.

“Ai Dona Gracinha, não foi sonho não.”, disse eu apontando a Poeira Fugitiva, ou melhor Pede Pra Sair.

Aquela Sujeira desgracenta parecia um guarda-roupa de tão marombada. Tinha uns braços do tamanho da minha cintura, que nunca foi de pilão. Ela, ou melhor, ele estava vestido que nem aqueles maloqueiros, com calça jeans na metade da bunda, parecendo que cagou na roupa, blusa colada, óculos escuros e boné. Havia tatuagens de presídio espalhadas por todo seu corpo.  A Poeira da Dona Gracinha era mesmo casca grossa!

“Então, Gracinha de Jesus Fudência, podemos começar a descascar seu abacaxi ou vamos adiar para a próxima reencadernação?”, perguntou Pede Pra Sair.

“Quem propôs o jogo fui eu, então, que assim seja.”, retrucou Dona Gracinha recobrando sua força.

“Não Dona Gracinha! Não fica dando trela pra esse malandro. O que ele quer é enredar a gente nessa conversa fiada de Treta e tirar uma com a nossa cara. Vamos embora!”, bradei irritada.

“Minha querida Joana, Pede Pra Sair está certo. Sair daqui, será repetir o que temos feito durante milênios: varrer estas Poeiras Maloqueiras pra debaixo do tapete outra vez. Por quanto tempo viveremos nossas vidas assim? Adiando a escolha? Contornando o Dever? Viver é um ato de coragem, minha cara. Então, empunhemos nossas vassouras e enfrentemos com bravura as nossas Tretas!”, disse Fudência com orgulho.

“Ô Preguiçosa do Caburetê, nem pense que você ficará ilesa de um tete-à-tete comigo. De criança bestalhona eu só tenho a cara. E não vem passar melzinho na boca da mamãe aqui não. Resolve a Treta e eu desapareço da sua vida. Do contrário, estarei nos cantos, sempre à sua espreita.”, interrompeu Punhetinha feito uma maioral.

Suspirei profundamente. Contra os fatos não há argumentos. Que eu andei avacalhando daqui e dali, empurrando uns pepinos com a barriga, isso era verdade. Mas ai?! Pra que resolver aquilo agora? Um dia tão lindo lá fora… será que as Poeiras Marginais não topariam discutir isso na rede, tomando um drink gelado?

Vasculhei meus arquivos mentais para ver se tinha algum problema urgente, alguma situação vencida, tipo prestação de banco, que precisasse ser resolvida imediatamente. Não consegui me lembrar de nada. Um véu de poeira cobria meu raciocínio. Era tanto pó que não dava para enxergar um palmo diante do meu nariz. A coisa estava mesmo periclitante!

“Ok Punhetinha. Vamos descascar logo esse abacaxi.”, disse eu me rendendo aos argumentos de todos.

A menina com voz de machão tirou um papel do bolso. Ele estava dobrado em muitas partes. Ela desfez cuidadosamente cada uma das dobras. Por fim, tossiu, limpando a garganta pigarrenta de charuto e começou:

“Fazer compras

Cozinhar o próprio rango

Pagar as contas

Capinar o quintal

Fazer exercício físico

Ligar pra tia chata doente

Falar pro pai EU TE AMO

Mandar o Joãozinho pra Puta que o Pariu

Organizar os armários

Conversar com o ex-peguete e botar um ponto final nessa lenga-lenga

Estudar

Escrever o artigo acadêmico que deveria ter sido entregue há 7 anos atrás

Desempenar as portas de todos os quartos da casa

Jogar um pouco de tralha fora”

“Bem, tem mais umas coisas aqui, mas acho que com isso já dá pra começar.”, finalizou Punhetinha me entregando a lista.

Percebi que ela não tinha desdobrado o papel todo. Ainda faltavam umas centenas de dobras.

“Puta que pariu! Isso daqui foi o que eu miguelei nessa vida ou você tá contando desde aquela minha encarnação como prima de quinto grau de Platão? Putz! É coisa pra cacete!”, desabafei nem querendo desdobrar o resto do papelzinho que poderia ser infernalmente infinito feito a prateleira da sala de estar.

Punhetinha franziu o senho e me lançou um olhar fuzilante.

“Ô Madame Deixa Pra Depois, se você começar agora, quem sabe sobra uns 2 minutinhos pra você  tomar uma limonada antes de enfiar os dois pés na cova. Vaza daqui e vai resolver a sua Treta.”, disse ela apontando a porta.

Crianças podem ser seres muito desconcertantes, por jogar a verdade na sua cara sem nenhum compromisso com etiquetas sociais. A menina sapecou a mais pura realidade na minha cara e ainda me chamou na xincha. E eu, que estava aprendendo a ouvir os chamados do meu coração que vinham nas vozes dos seres e das situações mais loucas, catei a lista e fui tratar de resolver minhas pendências. Primeiro o dever, depois, com a alma livre e leve, rede, limonada e diversão.

“Pra desembolar essa parada, só mesmo usando a tática do infinitamente pequeno e simples. Então, por onde começo?”, falei comigo mesma.

Caminhei pelo longo corredor e deparei-me com a porta que dava para a rua. Ao abrí-la, me deu um desânimo, pois o mato estava mesmo muito alto. Parecia que o jardineiro tinha aposentado à séculos. Fiquei deprimida com aquela situação. Mas logo a voz do meu Vô Clovis retumbou em minha mente e trouxe de volta o meu ânimo:

“Depressão é coisa de gente bundona. Dá um lote pra capinar pra um deprimido que a moleza desaparece!”, dizia ele com aquela pinta de Super Patriarca.

Catei um podão, uma enxada e uma daquelas vassourinhas de rastelar a grama e fui tratar da minha vida. Eu não estava na varanda curtindo mordomia mas ainda sim pude aproveitar o dia lindo e a brisa fresca que aliviava o peso do trabalho punk que Punhetinha tinha anotado na lista.

Depois de algumas horas de muito exercício aeróbico, finalizei o jardim, que agora estava transitável e não mais parecia a floresta Amazônica.

“Primeiro passo, feito!”, disse eu riscando a tarefa da lista.

Voltei para dentro da Casa. Verifiquei a lista. Olhei para o móvel do hall de entrada e vi uma pilha de papéis.

“Acho que aquilo ali é o amontoado de dolorosas para pagar.”, pensei.

E era mesmo. Um tantão de contas pendentes. Claro, o que eu esperava? Uma casa tem lá suas despesas. E como o imóvel agora me pertencia, eu gostasse ou não, tinha que bancar aquilo que era meu. Peguei o Porco Rosa, que salvara minha pátria no Mercadinho D’Alma e fui tratar de descobrir onde eu poderia efetuar os pagamentos.

Lembrei-me de Seu Beleza Pura e do nosso primeiro encontro. No final das contas foi divertido aventurar-me na quitanda. Quem sabe ele não saberia me informar qual o banco mais próximo? Decidi ir até lá fazer uma visita. Apanhei a papelada e partir com a coragem de quem resolve pagar a dívida externa do País.

À caminho do mercadinho, avistei, do outro lado da rua, o Joãozinho.

“Ai! O chato não!!!”, disse eu abaixando a cabeça para  me esconder.

Joãozinho era um rapaz que conheci na vizinhança de meu antigo apartamento. Um cara falastrão que tem a prosa ruim e põe empecilho em qualquer coisa. Um autêntico Pela Saco.

“Não fuja de mim, danadinha! Eu te vi!”, disse ele cruzando a rua em minha direção.

“Oi Joãozinho. Desculpe, não posso falar agora. Estou com pressa!”, respondi tentando me livrar dele.

“Aonde você vai?”

“Vou pagar umas contas.”

“Nossa! Você viu o preço da conta de Luz? Um roubo né! E a água menina. Lá em casa a gente agora toma banho só uma vez por semana! Esse governo fudêncialista é mesmo osso duro de roer. Arranca o couro da gente!”

“Joãozinho…”, disse eu tentando interromper a avalanche de pessimismo prestes à me engolir.

“E você tá sabendo da última? Não? Pois eu te conto. A Beth, filha da lavadeira da vizinha da minha prima ficou grávida e ninguém sabe quem é o pai! Olha que absurdo! Menina rameira. Também né coitada, o pai dela é o maior porta de cadeia! Sem contar que tem o primo da tia da minha colega, que pegou a noiva no flagra, dois dias antes do casamento. Que situação! Esse mundo está perdido!!!”, contou Joãozinho que mais parecia a revista Contigo, de tão profundo e instrutivo.

Aquilo foi me dando nos nervos. Eu estava ali empacada com aquela mala sem alça e sem rodinha, falando pelos cotovelos no meu ouvido e ainda por cima me atrasando a vida.

Não aguentei mais e soltei, quase que sem querer mas morrendo de vontade:

“Joãozinho, meu querido, você me faria um imenso favor?”, perguntei docemente.

“Claro!”, respondeu ele cheio de solicitude.

“VAI PRA PUTA QUE TE PARIU!”, berrei enquanto virava as costas e prosseguia rumo ao meu objetivo.

O moço ficou tão surpreso com minha atitude que fugiram-lhe todas aquelas palavras fofoqueiras que saltavam-lhe da boca virtuose.

Quando me distanciei o suficiente, soltei uma gargalhada! Aquilo foi tão… fácil, bom, engraçado, maravilhoso! Finalmente consegui colocar um chato no seu devido lugar!!! E com isso, matei dois coelhos com uma paulada só. Me livrei do Joãozinho na vida real e na lista e estava à caminho de resolver mais um pepino.

Apertei o passo, pois ainda faltava muito para poder varrer Punhetinha de vez da minha vida. Porém, eu estava alegre por descobrir que cumprir o dever não precisa ser um fardo pesado. Eu poderia lidar com as coisas do cotidiano com leveza e muita presença.

Um pensamento me tirou daquele estado de graça:

“Ai, e a Dona Gracinha? Será que a lista dela tem dobras infinitas feito a minha?”

Bem, naquela hora era cada um por si e Deus abençoando a nossa malemolência pra nos livrar da Treta e libertar a Casa das malditas Poeiras Fugitivas.

CONTINUAsapeca

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A verdadeira história do Fim do Mundo – Parte X

“A minha caaaaaasaaaa tem quaaatro cantoooo. Em cada caaaanto tem uma frooo. Na minha caaaaasa não entra a maaaaaaardade. Na minha casaaaaa só entra o amooooo.”

Acordei com a dona Gracinha cantando. Estava parecendo uma cantora de música sertaneja jurando que era a Maria Callas. Ela tinha uma vassoura de palha enorme, maior do que seu próprio corpo e varria a casa com vontade enquanto soltava o gogó.

” Bom dia, Flor do Dia!”, disse ela quando me viu.

“Bom dia, Dona Gracinha.”

“Já dizia o ditado: quem canta, seus males espanta.”, disparou toda arisca, tentando explicar a cantoria.

“Arrume-se, minha cara. Hoje teremos um dia divertido, cheio de aventuras.”, finalizou.

Aventura, na Casa, já era rotina. Livro que voa, sopa que levanta gente morta, metamorfose em titica de galinha… onde mais eu poderia encontrar tanta emoção que não fosse naquele lugar?

Fui até a cozinha para preparar um café com torradas pra mim. Afinal, com o saco vazio eu não teria forças para qualquer empreitada. Olhei pela janela e vi um dia bonito. O céu estava azul, com umas poucas nuvens e o sol brilhava majestoso. Pensei em como seria bom deitar numa rede e ficar tomando copos e mais copos de limonada estupidamente gelada.

Apenas cogitei a possibilidade de um dia pacato e átoa e Dona Gracinha interveio:

“Hoje vamos brincar de detetive!”, exclamou.

“Detetive, Dona Gracinha? Mas somos só eu e você aqui. Não dá para jogar esse jogo. Além do mais, não estou muito animada. Prefiro mil vezes uma rede e um estoque vitalício de suco gelado!”, respondi contrariada.

“Chato nada, boba! O jogo de detetive aqui é bem mais legal do que aquele de tabuleiro ou o de piscar e matar o colega com o olho. Vamos nos embrenhar numa empreitada de tirar o fôlego: a “Caça à Sujeira debaixo do Tapete”!”, retrucou Dona Gracinha com bom humor.

” ‘Caça à Sujeira debaixo do Tapete’? Isso daí não é jogo. Lá em casa minha mãe tinha outro nome pra esse negócio: FAXINA! E não é nada divertido. A gente tem que ficar varrendo tudo que é canto, espanando poeira. Ah nem!”, resmunguei torcendo o nariz.

“Larga de ser estraga prazeres! A faxina da sua mãe era chata pois você fazia obrigada e ainda por cima, limpava um espaço que não era seu. Ninguém gosta de cuidar de algo que não é seu. Só os bobocas fazem isso. Venha, pegue uma vassoura que nem a minha, uma pá e vamos procurar sujeiras enfiadas debaixo dos tapetes nessa Casa. Te garanto que será uma experiência única! Se você não se surpreender no primeiro achado, prometo que você pode largar a vassoura e ir lá pra sua rede chapar o melão de limonada suíça.”, argumentou a velha.

A proposta me soou honesta. Claro que ia ser um tédio varrer a Casa. Dona Fudência, no auge da sua esperteza, estava tentando usar de psicologia infantil para me convencer a fazer o serviço. Mas quantos anos ela acha que eu tenho? Cinco? Aquela conversa fiada de aventura… fala sério! Eu sabia que no primeiro cômodo que a gente varresse ia ser a mesma chatice enfadonha de sempre. E como ela tinha prometido me alforriar da tarefa, caso não me surpreendesse, isso significava que muito em breve eu estaria na varanda curtindo o sol e uns refrescos.

“Ok, Dona Gracinha. A senhora me convenceu. Vamos à “Caça da sujeira escondida debaixo do tapete”. falei, já de vassoura em punho, com a boca cheia d’água…só de pensar na jarra de limonada.

Seguimos o corredor cheio de portas, aquele que tinha o quarto de espelho e o outro com as camas em forma de armadilha. Dona Gracinha caminhava a frente, parecendo um comandante de uma missão super secreta. Ela olhava para os lados, pra cima e pra baixo, como se fosse o agente 007. Era até engraçado: uma velha tampinha, com sua super “bazuca de palha”para lutar contra as partículas malévolas de poeira, agindo que nem a Jane Fonda à procura de sujeiras altamente suspeitas. Quis dar uma gargalhada, mas ela me repreendeu:

“SHHHHH! Se você fizer estardalhaço a poeira esconde muito bem escondido e não conseguimos pegar ela no flagra!”, sussurrou a Agente Fudência.

“Sim senhora!”, disse eu baixinho batendo continência pra tirar onda com ela.

Fomos as duas, caminhando na ponta dos pés pelo longo corredor da Casa. De repente, comecei a ouvir uns ruídos de passos e cochichos. Dona Gracinha parou subitamente e colocou-se em posição de alerta:

“Elas estão por perto. Acho que logo ali.”, cochichou ela apontando uma das portas.

Andamos silenciosamente até lá. Fudência segurou a maçaneta e antes de abrir-la  recomendou:

“Elas estão aí, nesse cômodo. Fica esperta!”

“Elas quem?”, perguntei eu.

“As Sujeiras que vivem escondidas debaixo do tapete, ora bolas! Quando eu abrir a porta, fique de olhos bem abertos pois só teremos um segundo para ver para onde elas foram antes que desapareçam completamente. Daí é só ir até o esconderijo e…PIMBA!”, disse ela fazendo um movimento brusco com sua vassoura, como se estivesse pulverizando o que já é pó.

Os ruídos continuavam. Pareciam risadinhas de crianças brincando atrás das portas no longo corredor. Dona Gracinha empunhou a vassoura como uma víbora  que se prepara para o bote. Girou o dispositivo e foi abrindo a porta devagarinho. Eu estiquei o pescoço para espiar dentro do cômodo, mas só conseguia ver uns vultos correndo loucamente pra todo lado. Eles continuavam rindo e sussurrando enquanto se escondiam atrás das portas, debaixo da cama, atrás da cortina, dentro dos armários… em todo canto!

“Olhou bem pra ver aonde esses salafrários de uma figa se enfiaram?”, perguntou Dona Gracinha tão logo o quarto ficou em silêncio.

Eu nem ouvi a pergunta pois já estava segurando o pé de … hum… uma Poeira Fugitiva??? É, vou chamar assim. Eu estava segurando firme o pé da tal Poeira Fugitiva que se debatia e tentava à todo custo livrar-se de minhas garras e esconder-se embaixo do tapete.

“Acode aqui Dona Gracinha! Peguei uma!!! Peguei uma!!!”, berrei triunfante.

“Nossa Joana! Essa é uma Sujeira Sarnenta das grandes!”

A Poeira Fugitiva lutava com todo ímpeto para livrar-se de nossas mãos. E finalmente, ela deu um chá de canseira em mim e na Dona Gracinha e se enfiou debaixo do tapete. A tal Sujeira conseguiu escapar de nossas garras.

“E agora? Temos que pegá-la! Uma Poeira Fugitiva que tem pé e mão!!! Nossa Senhora!”,  disse eu excitada.

“Pelo visto a rede e a limonada ficarão para outra ocasião.”, respondeu a Fudência piscando o olho pra mim.

“Bem, sabemos que ela está escondida logo ali no tapete e está cercada. Não terá como escapar. Eu fico com esta danadinha aqui e você vai atrás da outra que se escondeu no armário.”, ordenou o Agente Secreto.

Fui em direção ao guarda-roupa. Ele estava com uma das portas entreaberta. Imaginei que a minha Poeira Fugitiva estaria ali. Imitei Dona Gracinha e armei a vassoura para não ser pega de surpresa. Abri a porta devagarinho, pois não sabia o que iria encontrar.

“AHA! Te peguei, sua imunda!”

Vi dois olhos azuis imensos e uma mãozinha pequenina muito branca. Uma criança saiu de lá de dentro. Ela tinha uma carinha sapeca. Seu semblante era muito vivo.

“Que droga! Você me pegou.”, disse a Poerinha Infanto-juvenil fazendo becinho.

“Quem é você?”, perguntei surpresa.

“Meu nome é Pequena Procrastinação. Mas todos me chamam carinhosamente de Punhetinha.”, disse ela encolhendo os ombros.

Realmente, a tal Caça à Sujeira debaixo do Tapete naquela Casa, não era igual à  faxina proposta pela minha mãe. Quando é que eu poderia imaginar que encontraria uma poeira em forma de gente? E agora? O que eu faço? Não ia rolar de varrer a menina pra debaixo de canto nenhum.

Do jeito que a Dona Gracinha estava cautelosa e cheia da energia do Rambo quando começamos a brincar de detetive, a tal Punhetinha, apesar de bonitinha, não devia ser flor que se cheirasse. Ela até podia ter aquela carinha fofinha, porém a gente sabe que quem vê cara não vê coração. Mas aqueles olhinhos azuis me derretiam feito manteiga. Talvez Punhetinha fosse só um diabinho como qualquer outra criança. Ela poderia fazer travessuras, mas nada que desencadeasse a Terceira Guerra Mundial . Quem sabe eu não conseguia fazer com que ela saísse da Casa numa boa? Assim não seria necessário fazer “PIMBA!” nela.

“Olha Punhetinha, aqui não é lugar para você. Sujeirinhas que se escondem debaixo do tapete correm muitos perigos nesta Casa. Por que você não vai embora, procurar sua mamãe?”, perguntei em tom gentil.

“Porque quem armou a Treta de me enfiar debaixo da porra do tapete foi você. Agora, mano, ajoelhou tem que rezar.”, respondeu ela com uma voz grossa, digna de um Ricardão.

Agora eu estava mesmo, confusa, fudida e mal paga. Uma criancinha com nome de sacanagem que tinha voz de marmanjo e swing de malandragem.

“Putz! Vou sentar a vassoura nessa pirralha!”, pensei.

Empunhei minha arma mortal e quando ia lascar a porretada na cabeça da Punhetinha, ela fez um gesto com as mãos e falou grosso:

“Se você vai me varrer dessa vida, primeiro precisa me perguntar qual é a Treta e resolvê-la. Fui parar nessa merda de tapete porque você adora punhetar com a vida. Então, se vai me matar, faz o serviço direito pra não ter que me procurar pelos cantos outra vez.”

Punhetinha tirou um charuto do bolso e acendeu-o calmamente.

“Meu Deus, aqui nessa vizinhança não é proibido vender fumo para seres que ainda nem largaram a mamadeira? Que tal vender uma caixa de pirulitos ao invés de um Malborão Vermelho?”, pensei.

Enquanto soltava umas baforadas a menininha empoeirada me perguntou:

“E aí véi, não vai perguntar qual é a Treta?”

Exitei um pouco. Aquela situação mais parecia uma conversa de boca de fumo, e eu não tinha certeza se queria mesmo saber a origem da mercadoria.

“Isso não tem nada a ver com treta nenhuma. Acho melhor você sair vazado antes que a Dona Fudência te faça evaporar com a vassoura. Aproveite, pois ela não será tão boazinha quanto eu.”, barganhei com a tal Poeira Fugitiva.

“HAHAHAHAHA! Nem vou precisar pagar pau pra sua coroa. Olha lá, ela. Tá com o cú na mão pra saber qual foi a Treta que fez a Poeira dela se enfiar pra debaixo do tapete também.”, gozou Punhetinha.

Olhei para o lado e vi uma cena inimaginável: Dona Gracinha branca que nem cera, paralizada de medo. Ela olhava para o vazio como quem fitava a Morte nos olhos.

“Dona Gracinha, está tudo bem com a senhora?”, inquiri, deixando de lado a Menina Punheta.

A velha permaneceu muda, olhando para o nada. De repente ela levantou o braço e apontou o dedo para a parede. Ali tinha um quadro com os seguintes dizeres:

“A armadura do guerreiro é de aço. O corpo e o coração não.”

Fiquei olhando para a mensagem sem entender bolhufas. Depois de alguns segundos de silêncio, Dona Fudência anunciou estarrecida:

“Joana, essa é a resposta da minha Treta! Tô fudida!”

CONTINUA…

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A verdadeira história do Fim do Mundo – Parte IX

“Comecemos do início. Contarei uma história que explica o fio que nos une… desde tempos imemoriais…”, começou Sacerdote com ares de profeta.

“Ele vai contar aquela história linda!!! Adoro quando ele fala sobre a Lorota, o conto de nossa origem!”, disse Sacana batendo palmas.

Não queria ouvir Lorota nenhuma, mesmo que ela saísse da boca de um Sacerdote e tivesse cara de coisa “sagrada”. Porém, enquanto eu não conseguisse sair da coberta e acender a luz, estaria à mercê daquele bando de doidos de pulseirinha.

“Era uma vez, Deus. Ele era Tudo o que existe. Estava em cada canto, em cada coisa e até mesmo no Vazio. Ele seguia criando e destruindo mundos, galáxias e constelações. Porém, um belo dia, o Todo-Poderoso ficou muito entediado.”

“Coitado!”, interrompeu Lamentação compadecida do tormento de Deus.

“Besta! Você já ouviu essa história mil vezes e sempre interrompe na mesma parte!”, repreendeu Ranzinza.

“Prossiga Mestre.”, pediu ele.

“Pois então, Deus ficou muito entediado. Sua vida era muito previsível. E além disso, Ele não tinha muito com quem conversar, discutir os assuntos ou se gabar de todas as suas Onicapacidades. Foi então que o Altíssimo teve uma idéia.”

“E se eu me dividisse em pequenas partes e brincasse de esconde-esconde comigo mesmo?”, pensou a Mente Divina.

“O pensamento encheu-O de alegria. Aquilo sim seria uma aventura.  Quem mais poderia brincar de se esconder consigo mesmo? A Criança que existia Nele bateu palmas de felicidade e disse:

“Sim! Até que em fim algo divertido nessa vida monótona cheia de Onipotência. Vamos brincar! Poderíamos acrescentar duas regras para deixar o jogo ainda mais divrertido:

Primeira: as partes que jogarão conosco serão infundidas de um desejo desembestado de procura. Porém, um véu cobrirá seus olhos e elas jamais saberão o que buscam. Só se souberem onde procurar. Daí elas podem bater no pique e estarão salvas.

A segunda regra é: a brincadeira só termina, quando TODAS tiverem batido no pique. Para isto as partes jogadoras precisarão saber exatamente o que e onde encontram o que procuram.”

“Adoro essa parte! A Criança endiabrada sacaneando os outros que nem eu!!!!”, respondeu Sacana satisfeito.

“Posso prosseguir?”, perguntou sacerdote impaciente com tanta interrupção.

“SIM!”, responderam todos em coro…inclusive eu.

“Deus achou aquilo meio pesado demais. Os jogadores ficariam procurando meio que a esmo o tal pique. Mas afinal, todos eram partes Dele – o Onisciente – o que significa que, escondido em algum canto, possuíam todos os Seus Super-Poderes Divinos.

“Talvez, uns obstáculos de nada como o esquecimento e a cegueira não sejam assim uma coisa tão perversa.” pensou o Divino tentando justificar sua Sagrada Pilantragem.

Sua vida estava tediosa, um pouco de sacanagem ia deixar a brincadeira mais apimentada. E assim concordou com as regras de sua Criança.

Primeiro, delimitou um espaço para que o esconde-esconde acontecesse. Esse espaço chamou-se Redoma. E depois dividiu-se em bilhões de pedaços. Foi bonito ver aquilo, pois parecia um Grande Sol Central rodeado de estrelas ziquezagueantes. Cada ponto de luz foi colocado num recipiente de maneira que suas partes luminosas pudessem jogar o jogo com Ele. E assim começou a partida.”

“Peraí, vocês estão me dizendo que estou viva porque aceitei jogar esconde-esconde com Deus e que a minha vida é essa merda por que a Filha da Mãe da Criança Divina avacalhou geral sugerindo um véu de esquecimento de tudo? Ah… espera lá! Acho que você está passando dos limites do que é lógico, senhor Sacerdote.”, interrompi completamente incrédula.

“Calma, cara Cagona. A parte lógica vai chegar. E é nela que você tem se apoiado desde que chegou neste mundo.”, respondeu Sacerdote confiante.

Pigarreou um pouco e prosseguiu com a narrativa.

“Então começou o jogo. Os seres na Redoma começaram a procurar um não sei o quê feito loucos. Eles tinham olhos, pele, ouvidos, bocas e seguiam usando essas partes para brincar com Deus. Porém, como eram ignorantes, não sabiam que era só uma brincadeira. Então a busca virou questão de vida ou morte para eles.

Alguns poucos, descobriram uma segunda brincadeira que os ajudou a bater no pique mais rápido: o jogo do ‘Tá quente, tá frio’. Quando se aproximavam do tal pique, seus corações aceleravam a batida e eles sentiam uma coisa muito boa. Quando se afastavam, o coração batia fraco e eles sentiam raiva, tristeza e muita dor. Porém, a maioria dos jogadores seguia entretida com os cinco sentidos, trombando e buscando que nem baratas tontas. E assim o jogo prosseguiu por éons.

Na Redoma havia muitas coisas. Os jogadores começaram a vivenciar muitas experiências e sensações. Com isso, eles sentiram necessidade de estabelecer suas próprias regras e brincadeiras. Deus ficou muito puto. Pouquíssimos sentiam o efeito da busca desembestada e queriam continuar brincando de esconde-esconde com Ele. Aos poucos, foi surgindo nos participantes um senso de discriminação em relação ao espaço da Redoma e em relação aos outros jogadores. Várias teorias e explicações lógicas brotaram em suas mentes para explicar a origem daquilo tudo e o porquê de suas existências. Havia muitas equações matemáticas e teorias filosóficas. Esconde-esconde transformou-se numa coisa para os idiotas sem cérebro. Eles só falavam do jogo dentro das igrejas.

Foi então que Deus em Sua ira resolveu botar para quebrar com seus jogadores. No auge de seu Divino Orgulho Ferido, Ele criou o escuro e nele colocou o potencial para todos os desastres na face da Terra.

“Esses ingratos vão ver só uma coisa!”, pensou o Onipotente enquanto apagava todas as luzes da Redoma.

Um breu sem precedentes baixou no lugar onde o jogo divino acontecia. Os jogadores entraram em pânico pois não conseguiam enxergar nada. Foi um caos! O que Deus, no ápice de Sua perversidade poderia ter colocado no escuro? Monstros, doenças, infernos infindáveis? Ninguém sabia prever o tamanho da Ira Divina e quais as consequências desastrosas de sua vingança.

E é aí que nós entramos. O escuro deu origem aos Incertos. Na falta de Luz, conseguíamos nos virar muito bem. De alguma maneira milagrosa, caminhávamos ilesos aos perigos que agora pairavam na Redoma negra.

Ao perceber o desespero dos jogadores e sua incapacidade de prosseguir naquele ambiente hostil, nos aproximamos e, cheios de dó, resolvemos guiá-los naquela jornada às cegas. Tomamos cada um deles pelas mãos e como cães-guia, fomos avisando quando tinha um dragão fumegante à esquerda, ou para desviar de uma medusa mais à frente. Nos transformamos em seus GPSs, ajudando-os através de seus medos a fugir de tudo aquilo que poderia causar-lhes dano e até a morte.

E assim, tem sido desde então. PALAVRA DA SALVAÇÃO!!!”, finalizou o Sacerdote em tom grave.

“Glória a vós Senhor!”, respondeu o seu séquito de Incertos.

“É por isso, cara Cagona que você morre de medo do escuro. No fundo você sabe que nele mora a ira de Deus. Afinal quem mandou vocês se distraírem com outras brincadeiras ao invés de achar o tal pique? Se não fosse por nós, as pobres vozes Incertas, sua geração não teria sobrevivido e nem você. Acho que um mínimo de gratidão e respeito de sua parte, seria aconselhável.”, disse o Incerto profetizador com voz malemolente.

Aquilo me soava estranho demais. Pela primeira vez, o medo baixou um pouco a bola e eu comecei a sentir que tinha uma treta naquela história toda. Nunca estudei muito a bíblia nem fiz primeira comunhão. Não sabia muito bem o que pensar de Deus e dos anjinhos no céu. Porém, que coisa mais conveniente: o Divino fica puto com a gente e de birra cria um escuro com potenciais destrutivos mas que, ninguém nunca foi realmente de fato destruído por ele. O boato da mortalidade contida na falta de luz espalha-se entre os tais jogadores da Redoma, ou seja, NÓS, e aparecem esses Incertos querendo ser bonzinhos a troco de nada???

Lembrei-me do sonho que tive no Mercado Madre Tereza de Calcutá e da sensação asquerosa que senti quando me deparei com tamanha bondade. Recordei inclusive de minha teoria na qual, o Capeta vem ao mundo vestido de gente muito boazinha!!! Ninguém, nem o Demo é bonzinho à troco de nada. Meus alarmes começaram a apitar frenéticamente:

“PERIGO! PERIGO! PERIGO! ‘Conversa para boi dormir’ em ação! Alerta vermelho!!!”, berrava uma voz dentro de mim.

Foi a primeira vez que ouvi essa voz. Até então, nunca tinha acontecido de eu escutar qualquer som ou sinal que viesse de dentro de mim. Resolvi que, por ser Minha Voz de Dentro, poderia ser bom levar um papo com ela para esclarecer a situação.

“Olá, tem alguém aí?”, perguntei mentalmente.

“Sim.”

“Quem é você?”

“Meu nome não é importante, mas se quiser me chamar de algo, pode chamar de Choque de Realidade. Você está em perigo. Por isso soei o alarme.”, respondeu a Voz.

“Sra. Choque, que perigo é esse? E como me livro desses Incertos parasitas?”, perguntei angustiada.

“Acenda a luz.”, respondeu ela.

“Mas para acender a luz terei que enfrentar o escuro e olhar na cara desses seres medonhos. É muito arriscado!”, respondi em pânico.

“Brincar de esconde-esconde com Deus é um risco que se corre na vida. Porém, só quem caminha no fio da navalha está à salvo, Joana. É hora de retomar seu papel no jogo com o Divino.”, alertou a Voz Chocante.

“Mas e se isso não for verdade? E se não tiver jogo divino nenhum?”, supliquei.

“Então significa que não existe Deus nem sua ira e por isso mesmo nenhum escuro. Você estaria privando-se de um copo d’água por uma mera criação de sua mente.”, respondeu Choque de Realidade.

“Mas está escuro. Estou de olhos abertos e não vejo nada. Porém escuto tudo o que os Incertos dizem e fazem neste quarto.”

“Você está em perigo, Joana. Um perigo criado por sua própria ignorância. Acenda a Luz e tudo ficará bem. Só mais uma coisa: você CRIOU o perigo mas NÃO É o perigo. Lembre-se disso enquanto caminha até o interruptor.”, sussurrou Choque de Realidade.

A Voz desapareceu.

Eu estava naquele momento da vida que se chama: “Ou dá ou desce ou fica na BR.”. Minhas opções eram permanecer vinculada pelo resto da vida aos Incertos por causa do medo do escuro ou, vencer o medo do escuro e dos Incertos e me libertar de tudo acendendo a Luz. Até então, a primeira opção sempre fora a única plausível. Não porque eu gostasse, mas porque era o que eu dava conta de fazer naquela situação.

Contudo, desde que pusera os pés na Casa, tudo o que eu julgava correto e seguro foi colocado à prova. Dona Gracinha sempre questionava meus meios de realizar e proceder para com as coisas, mostrando-me que a vida era realmente muito, mas muito mais do que eu jamais sonhara. Qualquer pessoa normal, imersa em sua hipnose cotidiana, diria que eu estava louca e tinha herdado um manicômio. No começo até eu pensava isso. Mas depois de minhas aventuras, das coisas que aprendi com a Casa e com a Dona Fudência, não fazia mais sentido viver sem questionar o tal “sentido natural das coisas”ou a famosa resposta das pessoas preguiçosas: “Isto é assim porque é assim!”, como disse meu tio para me explicar a existência do Juízo Final.

Tomei uma respiração profunda. O medo estava lá, com seus olhos vermelhos me encarando de frente. Eu olhei para ele e disse:

“O máximo que pode acontecer é dar game-over, e se isso acontecer eu ainda tenho a chance de começar o jogo outra vez. Então, está tudo bem.”

“Mestre, ela vai sair da coberta! Ela vai acender a Luz! Estamos fritos!!!”berrou Sacana.

“Ó Meu Deus!!! Estou com medo!!!”, gritou Lamentação.

“Calem-se! A Cagona sabe que caminhar no escuro seria o mesmo que assinar sua sentença de morte  e ela não é uma suicida, não é mesmo Cagona?”, disse Sacerdorte deixando transparecer um certo nervosismo na voz.

Tomei uma segunda respiração. Com ela disparei um comando para todo o meu ser. Naquele momento, nada mais importava. Independente do que acontecesse comigo, estava certa de que tudo ficaria bem. Eu tinha a mim mesma para me proteger, era seguro caminhar até o interruptor.

“Não se atreva a sair desta cama, Joana. Estou ordenando! Se você me desobedecer, não moverei uma palha para salvá-la do caos destrutivo que mora no breu e está à sua espreita.”, vociferou Sacerdote sentindo o seu poder sobre mim evaporar.

“Sinto muito caro Sacerdote. Agradeço sua preocupação e sua devoção a mim por todo esse tempo. Porém, já estou grandinha e sou capaz de enfrentar as consequências de meus atos. Acho que ficarei bem. Não preciso mais de sua ajuda.”, respondi tranquilamente.

Uma calma me invadiu por completo. Enquanto os Incertos berravam, gritavam de medo, eu permanecia silenciosa por dentro. Eles blasfemavam, xingavam, mas eu continuava tranquila. Abri os olhos e enxerguei o meu maior medo: o escuro. Ele era preto, vazio. Porém, pela primeira vez imaginei que, como aquilo não tinha nada aparente, ele podia conter tanto a Ira de Deus como o tal pique do esconde-esconde.

Dei o primeiro passo. Meu coração começou a bater mais forte. Uma coisa boa foi correndo em minhas veias. Dei mais outro. As batidas aumentavam e eu ficava mais feliz. Recordei dos jogadores da história que usaram o jogo do “Tá quente, tá frio” para vencer a partida. Tudo indicava que estava próxima do meu objetivo, pois em mim tudo era quente.

“Você vai morrer, Cagona dos Infernos!”, bradou Ranzinza.

Aquele berro me fez dar um passo para traz. Meu corpo esfriou e fiquei insegura. Meu coração diminuiu o ritmo. Era o meu condicionamento de acatar o medo e por causa dele, acreditar nas ameaças dos Incertos.

Apenas me dei conta disso, tomei uma respiração e voltei-me para o meu coração:

“Me guia. Mostra-me onde é o pique.”, pedi em oração.

Fui caminhando no escuro entre berros dos Incertos. Meu coração ia respondendo positivamente à cada passo. Eu estava tranquila, vazia de qualquer coisa. Só queria descobrir onde era o pique do tal jogo de esconde-esconde.

A ponta dos meus pés tocaram o rodapé de uma parede. Senti que não havia mais para onde caminhar. Minhas mãos começaram a tatear a superfície fria buscando algo.

“Você não pode fazer isto comigo. Sem mim você não conseguirá sobreviver! Eu dito as regras e você obedece. Sempre foi assim e sempre será! Volte já para sua cama!!!”, ordenou o Sacerdote.

“Sinto muito, camarada.”, respondi tranquila.

Aquele Incerto arrogante e cheio de empáfia desaguou em pranto seguido pela sua trupe. Todos estavam desolados. Parece que o medo tinha trocado de lado. Quem temia tudo o que poderia acontecer era eles, não eu.

“Piedade, Cagona!”, suplicou Lamentação.

“Eu juro que te trago um copo d’água. Na verdade te trago um martini se você desejar!”, emendou Ranzinza cheio de puxa-saquismo.

Minhas mãos tateavam a parede na busca do interruptor enquanto as vozes agourentas choravam suplicando por suas vidas. Por que será que eles tinham tanto medo da Luz? Será que seus corpos eram alérgicos a claridade? Ou eles tinham vergonha da própria feiúra?

“ACHEEEEEEIIIII!!!!”, gritei triunfante!

“Pelo amor de Deus, tenha pena de nós!”, disse Sacana em uma última tentativa.

“Deixem essa idiota acender a Luz. Nós morreremos mas ela também vai morrer! Parem de se humilhar!!! Morramos com dignidade!”, bradou Sacerdote deixando transparecer seu orgulho pisoteado.

Finalmente eu seria capaz de fazer algo tão simples, mas que me atormentou toda a infância: eu iria acender a Luz. Toquei o interruptor e apertei o dispositivo.

A claridade preencheu o quarto. Meus olhos se fecharam incomodados. Fazia muito tempo que estavam caminhando no escuro, portanto a Luz lhes trazia incomodos. Aos poucos fui levantando as pálpebras.

Olhei ao redor do quarto. Ele estava completamente vazio. Não havia ninguém!!! Pulei de alegria!!!

“Uhuuuu! Achei o pique! Bati!!!! Venci o escuro!”, gritei radiante.

Vasculhei cada cantinho, debaixo da cama, dentro do guarda-roupas e nem sinal daqueles Incertos medonhos.

“Eu sabia que eles eram criações da minha cabeça!”, disse eu aliviada.

“Que barulhada é essa?”, era a Voz da Prateleira…ou melhor, minha querida mestra Dona Gracinha.

“Dona Gracinha! Eu venci os Incertos! Consegui achar o pique e brincar de esconde-esconde com Deus!!!”, disparei feito maritaca.

“Joana, calma! Fala devagar. Que Incertos são esses? Jogo de esconde-esconde? Você bebeu? Ou foi a sopa que te deixou avariada?”, disse Dona Gracinha perplexa.

“Esfregue esses olhos e reconheça aonde você está.”, repreendeu Fudência.

“Enquanto isso vou buscar um copo d’água, você quer?”, finalizou.

“Sim!”, respondi quase me esquecendo da sede que originou toda a saga no escuro.

Ao olhar ao redor do quarto percebi que todo ele era feito de espelhos. Toda a mobília, as paredes…tudo era feito de superfície refletora.

Fiquei assombrada. Eu podia me ver de todos os ângulos, em todos os formatos e tamanhos. Parecia aquela sala bizarra de espelhos do parque de diversões.

“Seu copo d’água. Beba e acalme esses miolos. Já olhou e reconheceu onde está?”, perguntou ela sentando-se numa poltrona de vidro.

“Num quarto cheio de espelhos.”, disse eu.

“Este é o Cômodo das Projeções. Quando trouxe você para dormir, não sei porque, mas este foi o único quarto cuja porta consegui destrancar. Todos os outros estavam emperrados.”, explicou Dona Gracinha.

“Poucas pessoas gostam de vir aqui. Dizem que este lugar dá voz ao que existe de pior dentro de nós: O Bichão!”

“Bichão? Que bichão? Só tinha eu e um bando de vozes psicotícas que, graças à Deus são criações de minha mente.”, respondi aliviada.

“Sim minha cara. O Bichão é criação da sua mente e assume a forma que você quiser. Porém, ele te faz jurar de pé junto que você é ele, e que sem ele você não existe, não é nada.”

“Nossa Dona Gracinha! Que doido! Quer dizer que lutei com um Bichão?”, perguntei assustada.

“Sim. Nos consultórios psicoterápicos, para amenizar a gravidade da situação o povo chama ele de Ego. Mas não se iluda, é o seu pior inimigo…e jamais pode ser vencido.”, respondeu ela.

“O que isso significa? Ele vai voltar?”, perguntei branca de medo.

“É só você voltar a dormir que ele volta. Caia no sono e caminhe pelo mundo e você estará nas mãos deste patife outra vez. Porém existe uma arma para lutar contra ele: JAMAIS SE IDENTIFIQUE COM A TAGARELICE DE SUA MENTE! É lá que ele mora. Criar loucuras e sentimentos de auto-importância é uma de suas estratégias mais fortes para nos enfraquecer.”, esclareceu Dona Gracinha.

“Neste quarto cheio de espelhos a Voz do Bichão ecoa alto e retumba nas paredes refletoras. Você projetou seu medo de escuro no espelho e o Bichão aproveitou para dar uma volta e avacalhar contigo. Mas pelo visto, você foi mais esperta do que ele. Brava!!!”, disse Fudência me dando um tapinha das costas.

“Agora vamos dormir, é tarde!”, disse ela apontando minha cama.

“Boa noite Dona Gracinha! Bons sonhos!!!””

“Boa noite minha querida. Quer que deixe a luz do corredor acesa?”, perguntou ela carinhosa.

“Não precisa. Eu bati o pique e agora sei o que procurar e onde procurar. A Luz de meu coração está acesa. Não estou mais no escuro! Posso descansar em paz”, respondi triunfante.

E assim, fechei os olhos e dormi o sono dos justos que caminham no fio da navalha. Só eles sabem brincar de esconde-esconde com Deus.

CONTINUA…

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A verdadeira história do Fim do Mundo – Parte VIII

Acordei no meio da noite.

Não sei como fui parar na cama, naquele quarto. Só conseguia me lembrar de um monte de ossos. Eu estava vestida com o vestido vermelho que recebi no momento de meu nascimento.

Tinha sede. Senti o incomodo da goela seca, porém não movi uma palha para sair da cama. Era noite. Para meu azar a Casa estava um breu. Eu sabia o que isto significava: a porra do escuro e todas as minhas paranóias amigas relacionadas a ele.

Começou então o dilema. Eu tinha sede, muita sede. Daquelas que dá insônia na gente. Contudo, para resolver o assunto,eu teria que lidar com um dos meus maiores medos: o do escuro.  Atravessar o longuíssimo corredor da Casa, cheio de portas desconhecidas, até a cozinha, soava uma coisa das mais aterrorizantes. Ainda mais naquela Casa maluca. Sabe-se lá que tipo de bicho ou monstro poderia me surpreender?!

” Nossa! Mas que diabos sentir sede justo agora! O que eu faço?”, pensei aflita.

Meu medo do escuro surgiu quando criança. No meio da madrugada, vozes ensandecidas brotavam do nada e era um Deus-nos-acuda dentro do quarto. Parecia coisa de sanatório. Aqueles troços Incertos rindo e escarnecendo de mim, dizendo que iam fazer e acontecer comigo. Agora pensa bem: como uma criança vai lidar com isso? Até arrumei uma estratégia: dormia toda enrolada na coberta com uma brechinha só pra respirar e ” pegava firme com Deus” até que aquele bando de doidos do além calasse a boca e me deixasse dormir em paz.  É por isso que até aquele momento, eu – apesar de adulta – dormia que nem lagarta no casulo. Isso, de alguma forma, me protegeu durante todo este tempo  do Incerto que habita o escuro.

” Vou ou não vou?”, pensei com meus botões.

“Que menina cagona!!!”, sussurrou alguém no pé do meu ouvido.

” Santa Maria, essa Casa doida pode ter muitos demônios aterrorizantes!”, exclamou um outro que parecia estar mais assustado do que eu.

“Sede! Sede! Sede!”, bradou um terceiro sujeito.

” Cala boca, idiota! Não vê que a Cagona tem medo do escuro?”, replicou a primeira voz, que aqui chamarei de Sacana.

” Mas estou com sede! E com sede eu não prego o olho!!!”, respondeu a outra, que para mim era Ranzinza.

” Ó vida, ó céus!!! Quem poderá nos proteger dos Incertos no escuro?”, chorou uma das vozes. Ela soava Lamentação.

Que jóia! Eu agora estava num quarto escuro, com sede, no meio de um bate boca entre seres psicóticos que eu não sabia quem eram ou como pareciam. Ai, de novo não! Levei tanto tempo para superar essa faze poltergeist da minha vida! Tive inclusive que baixar uma lei em que só me seria permitido conversar com aquilo que meus olhos podiam ver e minhas mãos tocar. Achei que era uma página virada de minha história, mas pelo visto lá estava eu… no meio de um fudunço do além!!!

“Ei Cagona!!! Você não vai se manifestar?” perguntou o Sacana.

Fingi de morta debaixo da coberta. E eu estava mesmo morta… de medo!

“Ei Idiota, é com você mesmo que estou falando! Chama a gente e agora finge de desentedida? Não fuja da raia! Seja mulher e mostre essa cara pra nós!”

“Deixe a pobre coitada em paz. Ela é assim, inútil e sem forças. Tadinha!” disse Lamentação em minha defesa.

“Parem de cacarejar e façam essa menina levantar e buscar um copo d´água. Estou morto de sede!!!”, reclamou Ranzinza em defesa de seu interesse.

” Opa! Uma Reunião de seres Incertos. Como assim não me convidaram? Justo a mim, que sou o único capaz de ponderar racionalmente sobre qualquer assunto.”

Esse daí era uma voz nova. Aterrisou de para-quedas e me soava que nem um Sacerdote.

“Sim, cara Cagona. Sou um Sacerdote. Minha voz é lei!”

Putz! De novo alguém que podia ler meus pensamentos. Enquanto eu estava escondida debaixo da coberta, tentando ficar o mais invisível e morta possível estava ótimo. Os Incertos discutiam entre si e me tratavam como um sujeito de quem se fala, o que me excluía de qualquer responsabilidade ou participação naquela situação. Mas agora, o tal Incerto com nome de Sacerdote dirigia a palavra à mim – talvez porque como um carniceiro farejasse meu medo de longe. Senti que ainda que eu quisesse muito, não poderia mais fingir-me de égua naquele bate-boca sinistro.

“Vocês são um bando de estúpidos! Calem essas bocas!!! Qual é o problema para tanto cacarejo desnecessário?”, repreendeu o Sacerdote.

“Alguém aqui tem sede. E outro alguém tem medo de sair da coberta e buscar água na cozinha.”, respondeu Lamentação completamente submissa.

“Fechem essas matracas e vamos ouvir o que a Cagona tem a dizer.”, decretou o Incerto Sacerdote.

Bem, essa era a minha hora de dizer algo. Droga! Estava petrificada de medo, que diabos conversar com esses Incertos esquizofrênicos no escuro!

“Be.. be… bem… eu…er… hum… não sou Cagona. Meu nome é Joana.”, disse de forma quase inaudível.

“Hahahahaha!!! A Cagona tem nome… J-O-A-N-A! Que gracinha!!!”, disparou Sacana.

” Mestre, coitada dela. Ela tem medo dos Incertos. Que culpa a Cagona tem de nascer com um ouvido entupido de cera que, por isso mesmo nos ouve?”, choramingou Lamentação.

“Cala a boca, Chorona Incerta dos Infernos. Quero saber qual é o problema!!!”. rugiu nervoso.

“Sede! Tenho sede e a Cagona, quer dizer, Joana, não se atreve a levantar e buscar um copo de água para mim!”, resmungou Ranzinza.

“Hum… sede e medo do escuro. Tss… tss… tss… Que combinação mais triste.”, respondeu Sacerdote carregado de ironia.

Aquele simples comentário me fez sentir frustrada, fraca. A maneira como os Incertos me tratavam, meu apelido, só demonstravam o tamanho da minha incompetência.  Me senti uma marmanjona estúpida que não conseguia confessar seu pavor do Homem do Saco nem do Bicho-Papão. Que droga, Joana! O que há de tão difícil em levantar, acender a luz e caminhar tranquilamente até a cozinha? MONSTROS NÃO EXISTEM… ou será que existem?

“Que tipo de ser humano fica com medo de umas vozes de nada e deixa de matar um desejo só por causa de um escuro besta?”, profetizou o Sacerdote.

“HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!”, risos ecoaram em todos os cantos do quarto.

Meus olhos encheram-se de lágrimas. Eram tantas que não consegui contê-las, nem o engasgo sonoro que deu início ao meu pranto.

“Mas é por causa de vocês, seus Incertos ordinários, que tenho trauma de infância. Vocês faziam questão de perturbar meu sono com aquela conversa demoníaca. E agoram querem que eu me levante e caminhe entre seres que não conheço e que só me atormentam a vida?”, disse eu entre soluços.

“Não nos conhece? E quem disse que você não nos conhece? Somos velhos amigos, querida Cagona. Amigos íntimos, que nem arroz com feijão.”, zombou Sacerdote.

Ele era irritantemente pedante, arrogante. Mas tinha algo na voz daquele Incerto que me fazia jurar de pé junto que ele estava certo, sabia exatamente o que dizia. Ele parecia ser uma armadilha daquelas que foi feita para te pegar, não importa o quão esperto você seja. Sacerdote soava como uma tese acadêmica, cheia de abobrinhas tão cientificamente organizadas, tão verdadeiras que te convencem fácil a entregar de bom grado a mãe e até a alma para o Capeta!

“Não… eu não os conheço. Jamais, faria qualquer esforço para conviver com seres da sua laia.”, respondi tentando me reerguer.

“HAHAHAHAHA! Esforço? Mas é justamente por não querer fazer esforço nenhum que somos velhos amigos! Uma das regras primordiais que selam nosso pacto de amizade é a preguiça e a submissão. Não se lembra?”, cacarejou o Incerto Sacana.

“É MENTIRA!!!”, vociferei feito bicho.

“Ninguém em sã consciência procuraria seres desprezíveis como vocês. Cheios de segredos podres, por isso só podem viver no escuro, à espreita, na beirada… Incertos ordinários que vivem de esquinas e penumbras!”, finalizei cheia de ira.

“Gente, a Cagona resolveu abrir o coração! Palmas para ela!!!”, interveio o Sacerdote.

“Mas vamos esclarecer melhor as coisas por aqui: você está coberta de razão em tudo o que disse. Somos seres asquerosos, mesquinhos cheios de pendengas com o divino. Porém, a pergunta que não quer se calar é: você pode afirmar com 100% de certeza que É UM SER CONSCIENTEMENTE SÃO em condições mentais de dizer isso de nós?”, inquiriu.

“NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOO!!!”, berrou o coro de Incertos.

Aquilo revirou minhas entranhas. O que eu sentia era um misto de terror, ira com cobertura de impotência. Eu estava em pânico pois aqueles Incertos pareciam me conhecer muito bem. Morria de ódio do sarcasmo deles e da sua astúcia para enfiar o dedo em minhas feridas. Umas feridas feias que dei a vida para esconder tão bem. E impotência porque… bem… tinha o escuro…

Como eu queria levantar e acender a luz! Ter a coragem e a tranquilidade para fazer algo tão besta. Porém, uma força interna paralisava todo o meu corpo. O medo berrava que era perigosíssimo andar às cegas. Para me convencer, desenhava as formas mais grotescas em minha tela mental. Ele exibia cenas horríveis de monstros e espíritos agourentos só a espreita para me amaldiçoar pelo resto da vida. Isso chumbava meu corpo na cama e eu não conseguia sair de baixo da coberta e espiar do lado de fora. Ou seja: eu estava que nem uma boboca, enfiada debaixo da cabaninha, morrendo de medo de uma coisa que nunca tinha visto – e tinha raiva de quem visse – conversando com seres Incertos, que de tão incertos, podiam ser só loucura da minha cabeça desparafusada!!! Chama a ambulância do GALBA VELOSO!!!!

“E aí Mestre, a Cagona saí ou não saí debaixo da cabana? Eu quero um copo d’água! Minha goela tá seca!”, sussurrou o chato do Ranzinza.

“Não sei se ela deve sair de lá. Vai que ela vence o medo e acende a luz! Somos feito vampiros …  a claridade vai acabar com a nossa raça!”, cochichou Sacana com um quê de preocupação na voz.

“Enquanto ela não souber a verdade e jurar que tudo dentro dela é uma questão de cabo-de-guerra, estaremos à salvo. E cala essa boca, porque a Cagona é paga-pau mas não é burra.”, repreendeu baixinho o Sacerdote.

Percebi que eles estavam confabulando algo, mas não conseguia ouvir. Parecia que havia algum tipo de ruído dentro da minha cabeça, que não me permitia escutar com clareza o que eles diziam. Só deduzi que, se os Incertos falavam tão baixo, era porque havia um segredo importante e que eu seria a última a saber, claro!

CONTINUA…

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A verdadeira história do Fim do Mundo – Parte VII

A fogueira crepitava e a sopa dentro do caldeirão borbulhava.

Eu não sei quanto tempo fiquei absorta em meus pensamentos, tentando estabelecer uma comunicação com o fogo. O que será que a Vó Anastácia fazia enquanto cozinhava a tal poção ressussitante? Que ingrediente especial era esse, que não estava descrito na receita?

Meu pensamento andou longe e junto com ele foram meus olhos, perdidos no meio de tanta brasa. O fogo queimava e as chamas lançavam pequenos pedaços de si para todos os lados. O fogo é mesmo uma coisa bonita. É tanta beleza que queima nossa pele e até o nosso entendimento.

Estava nessa viagem quando ouvi um barulho.

“UHUUU… UHUUU…”

Olhei para o muro e vi uma coruja gigantesca. Ela tinha penas negras e douradas e tinha os olhos amarelos feito o sol. Eram olhos gigantes, arregalados que estavam apontados em minha direção.

“UHUUU… UHUUU… Joanaaaa.”

“Dona Gracinha, a senhora está aí?, perguntei ressabiada.

“UHUU… UHUUU … Joanaaa.”

Ou eu estava fumada sem ter fumado ou a mais pura verdade é que a coruja no muro sabia meu nome e conseguia pronunciá-lo na ponta do bico. Jesus, uma coruja falante! Era só mesmo o que me faltava! Quando a gente se depara com um estranho, o que a gente faz? Puxa uma conversa qualquer. E foi isso o que fiz. Arrumei um desses assuntos bestas pra puxar um dedo de prosa com a tal coruja.

“Noite estrelada, né?!”

“UHUUU… UHUUU… muito.”

“Você vem sempre por aqui?”

“Sempre … UHUU… UHUU.”

“A Senhora mora nas redondezas?”

“Não sou senhora…UHUUU… Me chame de MENSAGEIRO … UHUUU. Não estou aqui para ficar falando sobre condições metereológicas ou sobre a bolsa de valores Sou o MENSAGEIRO da Morte. Vim aqui falar com você.”

Eu queria berrar a Dona Gracinha, mas o grito morreu à caminho da goela. Engoli seco e senti a espinhela gelar. Senhor do Bonfim, a Morte em forma de passarinho veio me visitar, e ainda por cima, queria tratar de um assunto comigo. Será que era pra me oferecer o melhor pacote funerário da região?

“Você está cozinhando a SOPA LEVANTA DEFUNTO.”, afirmou o MENSAGEIRO.

“Sim, mas não fui eu quem escolheu o menu. Só estou vigiando o caldeirão no fogo.”, balbuciei trêmula.

“Não é possível levantar algo que está em pé…UHUUU…UHUUU. Para morrer é preciso estar vivo. Só quem está morto pode nascer. UHUUU…UHUUU.”, sussurrou o MENSAGEIRO.

“Olha Senhor MENSAGEIRO, acho muito bonita essa sua filosofia de cemitério. Mas eu preciso ir ali dentro buscar sal para por na sopa. Ela está muito sem graça, sabe?”, disse eu cagando de medo e já pronta pra correr mais do que uma lamborguini.

“UHUUU…UHUUU… mas a sopa não precisa de sal. Só falta o ingrediente especial. UHUUU…UHUUU. Sua bisavó lhe disse qual é?”, piou a coruja com olhos fumegantes.

Eu nem queria perguntar, porque a resposta era tão óbvia que chegava a me dar falta de ar. Será que minha vó Anastácia e a Dona Gracinha eram da tribo dos pigmeus, que curtiam um churrasco de gente mal passado? Ai…prefiro nem pensar.

De repente, apareceu um índio gigantesco do lado do caldeirão. Ele tinha a cara fechada e media mais de dois metros de altura. Ele vestia uma roupa de couro em tons de amarelo, que tornavam sua pele ainda mais brilhante e os seus olhos negros mais profundos. Ele carregava consigo um tambor.

Eu estava paralizada de terror! Agora sim é que iam servir um tira-gosto da minha panturrilha mesmo. E ainda por cima com direito à pagode!!! Jesus Cristo, que jeito de acabar a vida! Eu não quero morrer, não posso morrer! Sou nova! Tenho sonhos, tenho uma família que vai chorar muito no meu enterro -se é que vai sobrar um dedinho pra por no caixão! Sou uma boa pessoa, não mereço terminar meus dias na barriga de um índio vara-pau!

Eu tentava chamar por Dona Gracinha mas minha boca não obedecia. Aquele pio agourento da coruja tinha lançado algum feitiço em mim que tudo o que conseguia era ficar paralizada que nem estátua. Não era possível mover um só membro do meu corpo.

O índio começou a tocar o tambor bem baixinho. Enquanto as batidas ecoavam, um calor começou a subir pelos meus pés. Sem que eu quisesse, eles começaram a se mexer no ritmo do batuque. O índio foi aumentando a velocidade e meus pés foram acompanhando o frenesi. Comecei a rodopiar, pular e dançar em torno da fogueira. Ele começou a entoar um cântico em voz alta, numa língua esquisita que eu nunca ouvira antes.

Aquilo foi gerando calor em todo o meu corpo. Minha mente foi fervendo que nem a sopa no caldeirão. Eu não conseguia raciocinar com clareza. Tudo rodopiava dentro e fora de mim. De repente, tirei toda a minha roupa. Queria lutar contra aquilo, mas meus braços tinham vontade própria. Eles seguiam desabotoando botões, abrindo zípers…me depenando inteira feito uma franguinha. Quando estava nua com a mão no bolso, o MENSAGEIRO posou em meu ombro e piou:

“Sua hora chegou.”

Minhas pernas tomaram impulso e eu corri em direção ao caldeirão cheio de sopa fervendo. Pulei lá dentro!

Quando digo que o Fim do Mundo não é esse clichê de tsunami que todo mundo fala, é por isso. A morte daquilo que se pode tocar é algo doloroso e assustador, porém…o tipo de desintegração que eu encontraria dentro daquele caldeirão, era de longe o mais doido e o mais difícil de suportar.

Ao invés da sopa borbulhante que poderia derreter minha carne até o osso, encontrei um abismo…quase que sem fim. Despenquei em queda livre. Meus pés não encontravam o chão. A sensação era nauseante. Meu estômago foi parar na cabeça e o cérebro ficava de mãos dadas com meu fígado, pedindo “pelo Amor de Deus”.

Quando eu tentava me agarrar em algo, uma planta, uma pedra, a coisa se desfazia em minhas mãos. Tudo o que podia fazer era continuar caindo, sem saber a que horas eu espatifaria no chão. A voz do MENSAGEIRO retumbava em minha cabeça dizendo agourenta:

“Deixa morrer, Joana. Agora não existe Deus, anjo da guarda nem santo. Nem mesmo a morte física pode te dar chão e senso de direção neste momento.”

Quanto mais eu caía, mais eu sentia que todas as minhas certezas, medos, problemas, emoções iam se esfarelando que nem pó. Não havia nada o que pudesse ser feito. Até pensar nos meus dramas não ajudava a me dar senso de concretude.

O medo e o desespero beiravam o insuportável. Parecia que o meu EU não suportaria tamanha pressão.  Senti que viraria NADA. Implorei a Deus ou sei lá quem para que me matasse, pois assim, eu poderia sair daquela situação, ir para o Céu. Obtive um Silêncio esmagador como resposta e a continuidade de minha queda no escuro.

Acho que fiquei assim por décadas. Mas também parecia uns poucos segundos…nem sei. De repente meu corpo diminuiu a velocidade e eu aterrizei que nem uma pluma no chão. Nunca agradeci tanto por estar em terra firme! Me agachei para pegar um punhado de terra, para ter certeza de que aquilo era real, porém ela escorreu por entre minhas mãos. Tentei de novo e senti os grãos caindo, caindo. Estava escuro. Eu não conseguia enxergar um palmo diante do nariz.

Olhei para o lado e avistei um pequeno ponto luminoso. Corri desesperadamente em direção à ele. Eu precisava enxergar algo, saber onde estava, qualquer coisa que me fizesse ter certeza de que eu era real.

Aos poucos o ponto de luz foi ficando maior até que desenhou-se uma fogueira gigantesca. Com um pouco de claridade, resolvi olhar e tocar em mim para ver se tudo estava no lugar…mas não estava. Minhas mãos nada mais eram do que ossos. Olhei apavorada para meus pés e vi que eu era nada além de um esqueleto cambaleante. Meu corpo, minhas carnes haviam desaparecido.

“AAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHH!!!! Eu morriiiiii!!!”, berrei desesperada.

“Sim, você está morta. Pelo menos tudo aquilo que você acreditou ser você não passa de pó.”

Uma mulher com um vestido cheio de penas aproximou-se. Ela era deslumbrante! Parecia um ser de outro planeta.

“Meu nome é Vibração. Seja bem-vinda ao Santuário dos Ossos.”, disse ela sorrindo.

“Pelo Amor de Deus! O que está acontecendo? Se estou morta, então por que virei um esqueleto ambulante que fala? Isso é algum tipo de purgatório? O que eu fiz para merecer isso?”, disse em tom de profunda dor e agonia.

“Chore e enterre seus mortos, Joana. Tome o tempo que precisar.”, disse ela acariciando meu crânio oco.

O seu toque fazia com que meus ossos trepidassem. Meu corpo soava que nem um chocalho. A sensação era estranha.

Diante do fogo prostrei meus ossos e chorei… se é que do buraco negro dos olhos de uma caveira existem lágrimas. Chorei profundamente a perda de tudo aquilo que julguei ser Joana, ser meu, ser eu, ser minha vida. Naquele momento nada, absolutamente nada importava ou podia ser feito. Só havia uma mulher esqueleto que chorava sua partida do mundo.

Foi então que senti uma mão tocar meu rosto. Quando olhei, era minha vó Maria. Ela sorria calma, com olhos repletos de amor. Vovó me entregou um rubi gigantesco e disse:

“Filha, de hoje em diante eu te liberto do fardo da pobreza. A nossa linhagem já padeceu de falta e miséria por tempo demais. Você está livre para ser e manifestar no mundo toda a abundância que é sua por direito divino.”, disse sorrindo e desapareceu.

Mal me recuperei do choque daquele encontro e me deparei com minha avó Nicra. Ela caminhava perfeitamente, sem cadeira de rodas. Trazia consigo uma esmeralda magnífica.

“Minha neta querida, para você esta esmeralda. Que você seja livre para manifestar na Terra todos os seus Dons, que são muitos. Você irá brilhar e irradiar sem limites esta jóia que habita em seu coração. Chega de mulheres que se omitem e apagam seu fogo em nosso família. Você é uma semente de uma nova linhagem estelar.”disse ela me entregando a pedra e beijando minhas mãos cheias de ossos.

Daí, apareceu a bisavó Anastácia, a dona da receita da SOPA LEVANTA DEFUNTO. Ela morreu quando eu tinha 3 anos de idade, e segundo meu pai, era apaixonada pela sua bisneta de cabelo sarará.

“Joana, que mulher bonita eu vejo diante de mim. Os ossos são a parte mais difícil de se destruir no corpo humano. E você carrega a força de mil exércitos em cada partícula do seu ser. Porém querida, você não precisará ser uma guerreira dura para caminhar no mundo. Eu te liberto da maldição que transforma mulheres em postes rígidos e frios. Você está livre para ser gentil, doce e delicada feito uma flor de lótus. E ainda sim será corajosa, pois afinal, você é sangue do meu sangue.”, disse minha bisavó depositando um colar de pérolas sobre o meu peito.

De longe avistei minha bisavó Guiomar. Ela estava carequinha, pois tinha sofrido muito nas mãos de um câncer de mama antes de partir.

“Joaninha, mulher-estrela, sossegue a alma. Seu corpo forte e robusto jamais perecerá nas mãos desse mal carniceiro que me tirou a vida. Câncer é a maldição dos que devem muito à Deus. Sua dívida há muito já foi paga. Você está livre para viver eternamente e partir deste mundo quando quiser e do jeito que escolher.”, falou vovó Guiomar corando meu peito com um colar de ouro.

Nenhum profeta ou guru poderia prever situação mais incrível e além de qualquer limite. Ninguém nunca ouviu falar de alguém que morre e se transforma num esqueleto. Que vai à um santuário de ossos chorar sua morte e que encontra seus ancestrais que o libertam de todas as maldições milenares que assolaram sua família.

De longe ouvi um galopar. O barulho foi ficando mais alto até que do meio da escuridão surgiu uma mulher montada num cavalo selvagem de pelo marrom reluzente. Ela parou e desceu do animal. Veio caminhando em minha direção com passos firmes e decididos. Parou diante de mim e tirou do pescoço um colar que parecia mais um arco-íris em forma de jóia e me entregou. Era uma coisa extraterrestre, divina, inexplicável, assim como tudo o que acontecera desde que eu resolvera preparar a sopa.

“Eu sou Rita, sua bisavó. Você não teve tempo de me conhecer pois eu parti 40 anos antes do seu nascimento. Mas nem por isso a amo menos. Eu tenho orgulho de fazer parte do fio que tece sua história e aqui estou para assistir o seu renascimento. Este colar é o seu DNA cósmico novo. Bem vinda ao Novo Mundo!”, falou ela.

Minhas ancestrais me tomaram nos braços e me levaram bem perto do fogo. Eu nunca senti tanto amor em toda a minha vida. Cada pedacinho de mim estava completamente nutrido e preenchido de honra, gratidão, devoção e afeto.

A mulher Vibração fez sinal com as mãos e minhas avós gentilmente depositaram meus ossos dentro da fogueira. Aquilo que deveria evaporar ou virar pó transformou-se numa semente cheia de potencial e promessas. Uma carne tenra e bela foi recobrindo meus ossos. Meu corpo foi sendo refeito como se a fogueira fosse um grande útero. Do lado de fora, minhas avós cantavam e dançavam, entoando hinos de graças ao novo ser que era gerado.

Quando senti que era a hora de meu parto, abri os olhos e saí de dentro da fogueira. Eu me sentia 1000 anos mais jovem, porém com a sabedoria que só as cicatrizes em ossos pode trazer. Era como se tudo em todo o Universo tivesse nascido ali…naquele exato momento, da costela de uma menina comum. Quem era Adão para gerar tamanha perfeição e beleza!

Aquele grupo de mulheres me abraçou em grande festa. Sua neta havia acabado de chegar ao mundo. Elas me vestiram com um vestido vermelho de um pano leve e reluzente. E com risos e danças celebramos o Novo. Eu era a promessa cumprida de que todo o esforço de suas vidas não fora em vão.

Nem sei quanto tempo dancei com minhas avós. Elas estavam mais vivas do que nunca, em minha memória, em meu corpo, no fio da minha história. Senti um cansaço e adormeci feito um bebê nos braços delas.

Quando abri os olhos, ainda era noite. A coruja MENSAGEIRO desaparecera do muro. O caldeirão parecia frio e o fogo tinha apagado. Percebi que estava nua, deitada na grama. Não havia nem sinal do índio e de seu tambor.

Levantei-me para ver se a sopa estava pronta, mas o caldeirão estava vazio.

“Dona Gracinha…”, chamei baixinho.

“E então querida? Descobriu o segredinho da receita?”, respondeu ela acariciando meus cabelos.

“Não sei de nada. Sou nova neste mundo. Acabei de nascer.”

CONTINUA….

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A verdadeira história do Fim do Mundo – Parte VI

“Ô de Casa!”, disse eu entrando e fazendo barulho com tanta sacola.

“Vejo que seu encontro com o Seu Beleza Pura foi um sucesso, Joana! Quanta coisa você trouxe!”, respondeu Dona Gracinha, secando as mãos na barra da saia.

“Foi mesmo, Dona Gracinha! O Seu Beleza Pura foi um amor comigo. Me ajudou com aquela lista esquisita que a senhora me passou. Acho que estou começando a manjar melhor esse negócio de nutrição.”, disse eu sorrindo enquanto descarregava as compras na mesa.

Dona Gracinha voltou com o livro empoeirado que eu tinha achado na despensa. Não sei bem como, mas ele estava destravado. Vai ver foi macumba da bruxa velha que chamou o santo e mandou ele destrancar o livro de feitiço no muque.

“Hum … o que vamos cozinhar? Suas ancestrais eram mestres na arte de preparar mágica. Vejamos … risotto de cogumelo, peixe com damascos e batatas …esse não. Quem sabe uma sopa?”

“Pô Dona Gracinha … sopa? Isso daí não vai tampar nem o buraco do meu dente!” respondi cheia de frustração.

“Ah, mas essa sopa daqui, não é a água de batata a que você está acostumada. Essa daqui é a famosa SOPA LEVANTA DEFUNTO da sua bisavó Anastácia. Ninguém na sua família nunca te falou dela?”, disse a velha com ar de bruxa nariguda.

“Não.”

“Bem se vê que seu povo é um bando de gente raquítica mesmo. Mal consegue ficar em pé e caminhar com as próprias pernas.”, fuzilou Dona Fudência.

Resolvi não pestanejar, pois naquela Casa, tudo que eu achava que era de um jeito, na verdade se apresentava de outro completamente diferente. Depois de enfrentar uma aula de tradução juramentada de cebolas e pimentões com o Seu Beleza Pura, o melhor era fidar-me daquela velha. Vai que a tal sopa tirava mesmo o defunto do caixão e punha um pouco de sustança naquele monte de esqueletos?! Minha família era boa de cozinha, mas quando o assunto era cuidar do próprio nariz e prover o próprio sustento do coração a galera era um desastre completo!

” Vai ali naquela porta do armário e pega o caldeirão e a maior colher de pau que você encontrar. Enquanto isso, vou separando os ingredientes que utilizaremos nesta sopa.”

Obediente, fui até um dos muitos armários da cozinha e tirei um caldeirão de ferro enorme e uma colher de pau do tamanho da minha perna.

“Dona Gracinha, será que a senhora tem noção de quantas pessoas virão para o jantar? Isso daqui tá parecendo o sopão da Cruz Vermelha!!!””

“Êta menina atrevida!”, disse ela sorrindo.

O livro estava aberto. Eu fiquei curiosa para ver aquele exemplar digno de museu do Harry Potter. As páginas estavam amareladas pelo tempo. Elas pareciam feitas de um pano, que nem papiro. As brochuras eram alinhavadas com uma linha vermelha muito brilhante e a capa, era toda em couro – um couro duro de um bicho que nem sei se existe. Era um trambolho pesado e imponente! E ali, eu pude ver todas as peripécias mágicas de minhas avós, bisavós, tataravós…tudo escrito de próprio punho. Aquilo emocionou meu coração.

“Vejamos: cenouras, batatas, pimentão vermelho, verde e amarelo, cebola roxa…”

” PERAÍ!!!! Uai, agora a comida tem nome de comida? Por que você não me deu uma lista decente quando fui na quitanda??? QUE SACANAGEM É ESSA?”, interrompi puta da vida.

” Sacanagem ia ser eu deixar que  você continuasse uma completa analfabeta em matéria de alimento para alma. Já pensou que desperdício pro mundo? Mais uma besta quadrada que não sabe nada de cuidar do próprio traseiro e alimentar cada parte de seu Ser. E encerremos este assunto. Agora que já sabe o verdadeiro nome das coisas, podemos fingir que somos reles mortais ignorantes, que só comem pra encher a pançona. Não precisa fazer escândalo só porque descobriu a roda.”, respondeu Fudência dando de ombros.

“Então, onde parei? Ah, cebola roxa, açafrão em pó, salsinha, paio, bacon, pé de galinha, beterraba, macarrão. Acho que é isso! Pode começar a descascar e picar tudo enquanto vou ali na sala ver minha novela.” disse Dona Fudência me entregando um canivete suíço mequetrefe.

“Novela???? Isso daqui tá parecendo serviço de quartel!!! Olha só essa montanha de legumes. Vou acabar só na próxima encarnação! Ainda mais com esse canivete que não corta nem a idéia!!!”, disparei emputecida.

“E lembre-se que no quartel é assim, querida Joana: MANDA QUEM PODE E OBEDECE QUEM TEM JUÍZO!”, berrou a velha que agora tinha voz de corneta misturada com vuvuzela.

Bem, eu já sabia como começar uma coisa que parece infinita: basta fazer uma sucessão de “infinitamente pequeno e simples”. Peguei uma cebola daquela montanha, saquei o canivete e comecei a labuta. Afinal, fazer uma manota uma vez porque não se sabe é uma coisa. O repeteco já é burrice estampada na testa!

A cebola me fez chorar um pouco. Olhei para a pia, com aquele ar de serenidade e pensei comigo que, talvez, se eu tivesse descascado mais cebolas na vida, a cozinha não tivesse alagado.

O canivetinho até que era porreta. Míudo e com o fio bom. Cortava beleza e era confortável de manusear. Cortei a cebola em cruz e joguei no caldeirão. Agarrei uma batata que desceu rolando da montanha leguminosa e cravei a lâmina nela. Lembrei da vó Maria me xingando porque eu tirava a casca da batata muito grossa e isso era desperdício. Achei graça daquilo.

Não me lembro quantos legumes descasquei, mas a tarefa me deixou tão concentrada e tão bem dentro de mim mesma, que, quando dei por mim, estava finalizando o último pimentão vermelho e jogando-o no panelão.

“Fudênciaaaaaaaaaaaaaaaa!!!! Terminei!”, berrei triunfante.

“Já vooooouuu!”, berrou Dona Gracinha de volta.

“Muito bem, Joana! Utilizou a tática do infinitamente simples e pequeno! Garota esperta!”

“Obrigada!”, disse eu saindo pela porta da cozinha.

“Opa, opa, opa! Aonde a senhorita pensa que vai?”

“Uai, divisão de tarefas: já fiz uma parte, e agora a senhora finaliza, não?”, respondi já sentindo que o caldo ia entornar pro meu lado.

“O único defunto que precisa de ressurreição aqui é você, portanto volte já para esta cozinha e venha terminar o que começou!”, falou séria.

Resolvi manter o bom humor e centrar-me na tarefa. Se a Dona Gracinha falou sério é porque havia algo além de cozinhar o jantar. Naquela Casa, tudo era além do que aparenta. Parece que cada coisa tinha um significado, uma explicação. Minha missão naquele momento, era fazer para poder SABER.

“Bem, segundo a receita, Dona Anastácia fala para encher o caldeirão até o topo com água.”, respondeu Fudência com o livro em mãos.

Peguei um balde que estava ao lado da pia e fui fazer o que a minha bisavó havia escrito. Enchi o recipiente e despejei na panelona. Com umas 10 viagens consegui finalizar aquele caldeirão que parecia um poço sem fundo.

“Agora a gente leva para a fogueira, e deixa ferver.”, finalizou Dona Gracinha.

Eu e a velha sabíamos que levantar aquilo ali e levar pro terreiro só seria possível depois de 300 anos de academia de ginástica no módulo fissura marombeira. Ela tinha um braço raquítico, cheio de pelanca pendurada, e eu, apesar de robusta, tinha a resistência física de uma gelatina.

Fiquei aguardando o que ela iria fazer para poder imitá-la. Foi então que Fudência se transformou numa bruxa, com verruga no nariz, dedos compridos e tortos de tanta artrite. Seu cabelo virou uma tocha incandescente e os seus olhos pareciam duas pedras rubis cheias de fogo. A velha soltou uma gargalhada que a fez vencer sua corcunda gigante e jogar o corpo todo para trás.

Daí ela olhou fixamente para o caldeirão, começou a mexer a gororoba com a colher de pau e a dizer assim:

“Que nada me assombre, que nada me perturbe

Tudo passa, só o Criador nunca muda.

A paciência tudo alcança.

Aquele que tem o Criador nada falta.

Só o Criador basta.”

A bruxa ia mexendo o caldeirão e falando cada vez mais rápido. De repente, ela e o panelão começaram a flutuar e foram, devagarinho, voando porta à fora, em direção ao terreiro. A danada gargalhava alto, e expressava no riso toda a sua bruxaria e sua cara de feitiço. Fiquei besta, passada! Como aquilo podia ser? E a força da gravidade? Será que meu professor de física esqueceu de mensionar uma exceção à regra, na qual velhas bruxas com dupla personalidade não sofrem o efeito desta força terrena?

A “nave”cheia de sopa foi aterrissar numa pilha de toras de madeira. Tão logo o caldeirão tocou o solo, uma explosão deu início ao fogaréu que cozinharia nosso jantar. Fudência deu um mortal pra trás e quando colocou os pés no chão, olhou para mim com aquela cara safada de Gracinha à que eu estava habituada.

“Não me olhe assim, querida. Você também sabe se transformar e fazer feitiço. É só uma questão de memória.”, disse Dona Gracinha sorrindo.

“Agora, vem a parte mais importante: a sopa só cozinha e ganha gosto com o ingrediente especial. E é você quem vai fazer isto.”

“Eu? Mas eu nem sei nada desse receita, de cozinha…”, respondi sem entender nada.

“Saber você sabe. O problema é que desde criança, você via muita televisão. E com isso, encasquetou que a vida devia ser que nem a da TV. Todo mundo te acharia linda, cuidaria e faria tudo para você. Se havia algum perigo, o Príncipe viria te salvar. Se você tinha algum problema, o Super Mário Bros apareceria para te acudir. Se havia tristeza, Dona Benta secaria suas lágrimas junto com o Saci. Você só esqueceu de um pequeno detalhe: não existe Saci, Dona Benta, Príncipe ou Mário Bros fora de você. Todos eles são VOCÊ! E agora, esta sopa vai te fazer lembrar da sua capacidade de ser tudo aquilo que  sempre sonhou para si mesma. E assim, nunca mais sentirá fome!”, finalizou Dona Gracinha.

De minha parte, não havia o que retrucar. A bruxa estava certa até a última vírgula. Assim como todos os seres humanos eu andava à cata de alguém que pudesse Ser para mim, aquilo que me garantisse que a vida seria a da propaganda de margarina. Como qualquer um, cuidar da própria história era um fardo, pesado e sem graça. Para que caminhar com minhas próprias pernas se tem um idiota logo ali, pronto pra me carregar de cavalinho pelos próximos 1000 quilômetros de jornada?

“Dona Gracinha, então me diga que ingrediente é esse. Hoje, quem prepara meu sustento sou eu. E não perderei por nada deste mundo a chance de ser Deus em minha própria existência.”, disse eu com uma vontade cheia de alma.

“Sua bisavó, quando fazia esta sopa, ficava em companhia do fogo. Ela dançava e conversava com ele. Pois só assim o defunto que comesse da sopa ressussitaria. Vou te deixar em companhia da fogueira. Siga seu coração. Você saberá exatamente o que fazer e o momento exato em que a comida estará pronta.”, respondeu Dona Gracinha já de saída.

Olhei para o céu. Era uma noite com muitas estrelas. Há muito tempo eu não tinha a oportunidade de ficar amparada sob aquele telhado cósmico.

Sentei em volta da fogueira e comecei a olhar fixamente para as labaredas dançarinas. Elas eram sensuais, com aqueles movimentos sinuosos. Eu também nunca tinha olhado daquele jeito para o fogo.

Dali em diante, o papo era reto: eu e o Fogo, O Fogo e eu. E que os mortos voltassem a caminhar na Terra…vivos, e donos do próprio nariz.

CONTINUA…

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